sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Homeless




Esqueci a escova de dente oficial na outra casa. Aqui só veio comigo uma condor laranja, daquelas que o cabo vira uma capa para proteger as cerdas, uma escova vagabunda feita pra estar em qualquer lugar, até na bolsa de trabalho, onde tudo vive. Do lado dela, em cima da pia, uma pasta de dente velha demais, nem é sensitive, eu que uso sensitive há tanto tempo, ela tá lá, dobrada no meio, esperando desesperada a hora de descansar em paz. No banheiro também tem cotonete, muito cotonete, aquele pote redondo grandão, que boa surpresa, ainda bem que eu comprei um desses antes de viajar.

Tem algum tempo que eu não escrevo aqui, desculpem a quem procurou mais coisa e não encontrou. O motivo é que estou homeless: fui chamada às pressas para ir à Vitória para compor a equipe do Festival de Cinema de lá. Esse trabalho me orgulha bastante. É cheio de dificuldades. Não, é só feito de dificuldade, ser produtor de evento é resolver pepino, basicamente. Ainda mais quando o evento não está nadando em patrocínio. Enfim. Exatamente o que eu precisava para alimentar o meu Espírito Prático, tão adormecido por tardes de sesta depois regadas a café e leitura e escrituras, só o irmão tava ganhando comida, o Espírito Criativo, o Prático, coitado, tava “praticamente” morto. Rá.

Mas então, fui chamada assim, às pressas. Gosto dessa expressão porque fica parecendo que a gente é super importante. Ninguém dispensável é chamado “às pressas”, e, se eu fui, é porque precisavam de mim, o que é super legal e a cara dos trinta anos. Então eu fui. No meio da quizumba da estreia do programa. Gostaria de estar acompanhando mais de perto a repercussão, mas não deu, e talvez seja melhor assim. Só sei que fui, e agora parei um pouco para escrever porque estou no Rio, vim para gravar no meio da produção do Festival, o que é muito legal, afinal, há duas semanas larguei tudo uma farofa aqui, agora larguei tudo uma farofa lá, dá uma ventania no cérebro, essa coisa de ponte aérea rapidinho pra resolver uns troços, você esquece até a escova de dente oficial, achava você, na hora de fazer a mala, que não ia fazer falta, quando na verdade tudo o que a gente precisa pra se sentir em casa é a porra da escova de dente oficial, tem que estar gasta, senão não adianta, não adianta ter uma boa agora, o efeito é o mesmo da condor laranja vagabunda.

Mas esse papo é besta, e o que eu queria mesmo dividir com vocês é sobre as minhas impressões das cidades, que estão mudando. Começo a ver Vitória de um jeito diferente. Uma cidade emprestada. Familiar, mas emprestada, de ladinho. Começo a ver como a mobilidade é péssima, como a orla é bonita. Percebo como a cidade passa a ser feita de pessoas, aquelas pessoas que sincretizam o que sempre vou buscar lá. E que meus olhos já não estão mais anestesiados quando passa algo novo, construído nos últimos meses. Começo a ficar de turista, procurando os botecos recém surgidos pra não ficar muito marginal de tudo que nasce.
 
Daí que veio essa primeira impressão de que eu estava homeless. Desculpa o termo em inglês, mas tem umas palavras de outras línguas que são melhores que o português – poucas, mas existem.  E estar homeless é essa sensação de que você não pertence a lugar nenhum. Ou que carrega a casa nas costas. Gosto do jeito que Osho descreve isso no seu tarô – ele fala de uma tartaruga, que carrega a casa nas costas, mas a casa não é tudo que você precisa, é só o que você precisa. Tipo uma escova de dente, ou menos que isso, se você for mais evoluído budísticamente falando.  

Hoje, pela primeira vez, recebi um tapa. Desci no Santos Dumont blaseé, e acho que foi a primeira vez. Blaseé, sem olhar pros lados, e com aquela alegriazinha no coração de ter voltado pra casa, de pertencimento à cidade. Agora, é aqui. Que coisa estranha. Lógico, quando fico aqui por muito tempo tem um pedaço que fica de fora, que é toda a minha infância, porque o que tenho é um conhecimento da cidade construído pelo Google Maps e não pelo empirismo. Aprendo o Rio em regras escritas em caixinhas verdes, como nos livros de inglês, e não ouvindo os mais velhos falarem sobre isso. E nem os  mais novos. Talvez por isso eu sinta que é estranha a sensação de “que bom! Voltei PRA CASA” ao descer de um Santos Dumont. E como acho mais fácil lidar com as coisas aqui, e como fico patinando para pegar um ônibus em Vitória.

Pertencimento é tipo um interruptor, você pode virar uma chave que ele muda. Sabia? Não é ser homeless, apesar do que, pra mim, a ausência de um sentimento de casa pode ser a presença da casa em todos os lugares, é a essa conclusão que ainda não cheguei, se a gente é um ou outro ou tudo. Só sei que fui pega de surpresa com essa sensação hoje, eu realmente não estava esperando por isso, e tive que dividir com um amigo que já mudou algumas cascas de vida, e ele achou tão simples isso tudo, a minha grande descoberta. Acho que é porque ele já é three way.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O post do Cesinha




Cesinha Fernandes “Quero um post, um vídeo e um curta sobre como é legal me receber amanha na sua casa carioca. Como é legal limpar a casa, comprar café e açúcar (quando o erly nao come tudo), afofar os travesseiros e avisar pro seu Henrique que vamos falar alto a noite toda. Como é divertido me levar no Saara e enganar a Tati que vamos pra praia.

Já acordei morrendo de rir, mas logo isso virou uma tristeza, nostalgia, sei lá o quê. Porque você não tem ideia de como eu gosto mesmo quando tem visita. Eu marco com uma carinha feliz no meu celular e fico esperando a data que nem criança esperando 12 de outubro. Eu faço faxina, quase sempre, que aqui não tem pó de minério e nem sempre vocês reconhecem a diferença entre uma casa limpa e uma casa sem pó de minério, e deixo a Frida no quarto pra dizer que quem está esperando é ela. Eu adoro quando vocês vem, sempre gostei de receber e aqui a situação de carência amizádica tá bem pior.

É engraçado isso. Prefiro receber aqui do que ver em Vitória, pra falar a verdade. Lá, preciso me esticar pra encontrar todo mundo. Aqui, as pessoas são MINHAS. A qualidade das conversas são melhores, porque são separadas e porque sabemos que não temos todo o tempo do mundo, e quero sim que o dia tenha mais de 24 horas, e vou colocar chá verde no suco pra ninguém dormir. E como a vida fica suspensa por alguns dias quando vocês vêm aqui, e como insuportavelmente volta ao normal quando vocês vão embora.

Vocês não sabem como eu queria ficar jogando conversa fora no Nininho e deixar a conversa acabar, e ficar em silêncio porque cansamos de falar sobre trabalho, mas acho que estou fantasiando, isso nunca aconteceu. E vocês não têm a menor ideia de como a ausência de certas coisas dói dói dói às vezes, um comentário explicando uma TV aberta que não sei ver, um músico que não sei quem é, um conselho que ninguém vai dar e tenho que fazer decisões sobre a minha vida sozinha, ninguém devia ter que passar por isso. E eu não tinha ideia de que essa seria realmente a parte difícil de me mudar.

Gravamos ontem, estou numa ressaca monster e totalmente sentimental, aproveite esse momento. E já que é para fazer um post, que seja pra dizer como eu odeio ir ao Saara, mas já que é pra ir com vocês, tá legal. E que fico programando com antecedência coisas que acho que vocês vão gostar de fazer, e depois ainda levo a fama de ser tirana da programação. E como eu adoro praia, mas prefiro fazer alguma coisa que todo mundo goste, e enganar a Tati todo mundo gosta.

Agora vou tomar um suco detox e talvez até dar uma faxininha na casa, já que esse vôo não chega nunca. Ah! Mais importante: hoje vamos ver TV até a Anitta aparecer na propaganda do supermercado daqui, essa sim é uma coisa importantíssima que preciso muito mesmo mostrar pra vocês.   

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A alcateia

 
 
Fé é subir um primeiro degrau sem conseguir ver o resto da escada.

Rá! Eu estava louca de vontade de começar um texto com uma frase autoajuda, gente, não me contive. Mas vamos lá.

Desde que comecei esse blog, disse que vim pro Rio para ampliar meus horizontes. Obviamente isso tinha mais a ver com a esfera profissional do que tudo. Só não tinha abordado ainda o tema trabalho porque invariavelmente preciso ruminar as coisas antes mandá-las ao vento. Dito isso, recomendo que vocês leiam o post “O glamour da produção” antes desse, porque gosto de coisas cronológicas e porque vai ajudar o entendimento. Ou não, foda-se também, quem sou eu pra dizer que post você tem que ler antes.

Bem, estava eu já instalada aqui no Rio, e com algum dinheiro em caixa que fiz de freelas. Podia me dar ao luxo de pensar no que queria trabalhar aqui, sem ter que atirar meu currículo pelos quatro cantos de tudo quanto é loja de sapato (até porque, socorro, eu não venderia algum). Sempre gostei de TV fechada, e a bolsa da Dilma veio a calhar (pra quem não sabe, a presidente colocou uma cota que estabelece uma quantia mínima de tempo de produção nacional nas TVs fechadas. Ééééé, é por isso mesmo que você tá vendo um monte de porcaria na sua tevezinha fechada preferida agora!!!!! Descobriu!!!! Mas tem um monte de coisa boa também, e como eu faço parte do grupo beneficiado tenho que agradecer à Dilma. Obrigada, Dilma).

Daí que comecei a conversar com as pessoas, beber cerveja, e se quer uma dica, aqui no Rio é assim que se faz negócio. Não enviei um currículo sequer a quem não pediu expressamente para um trabalho no qual julgou que eu me encaixaria. Essa estratégia acabou me levando a trabalhar com um amigo, virou amigo agora, pra ser mais precisa, um cara que já trabalhou comigo em Vitória, em outra função, mas na mesma rede. Ele, com um sócio, estavam estruturando uma produtora e me “adotaram”. Foi isso. Não sei até que ponto isso tinha a ver com a real necessidade de uma jornalista lá dentro, ou se foi o espírito que bateu, mas o fato é que já havia uma equipe formada e eles me colocaram pra dentro. Sabe o que isso significa?

Entrar em uma equipe de TV é mais ou menos tentar fazer parte de uma alcateia já formada. Logo que você tentar entrar, todo mundo vem cheirar o seu rabo, só pra poder dizer que fede. Todo mundo vai brigar com você, ou pelo menos discutir, só pra medir o seu limite, o tamanho da sua força, os seus dentes.  Todo mundo quer saber se você pode feder a ponto de virar um macho alfa. Aliás, esse mundo é tipicamente masculino, é bom reduzir a feminilidade ao bastão do batom ou você pode se dar mal...

Mas depois que a alcateia está formada ela vira uma fortaleza. Trabalhar na rua, com todos os obstáculos diários, é impossível se não for assim. Então, regra número 1: nunca, jamais, em tempo algum contradiga o que um companheiro de trabalho disse para uma terceira pessoa. Depois você vai lá tentar entender com ele porque ele disse aquilo, mas roupa suja se lava em casa!

Regra número 2: tente ao máximo não extrapolar a sua função. Isso não é proatividade, aliás, é sim, e proatividade é uma merda. Fique na sua, que todo mundo ali sabe o que tem que fazer e cada um faz a sua função melhor do que você faria.

Regra número 3: reafirme os laços. Beba com seus colegas de trabalho. Retire os piolhos deles.

Não sei pra quê estou falando isso, mas enfim, essas são regras de ouro para mim, porque eu já me f*** muito quando não as segui e porque estou me sentindo muito bem sucedida, já que acabei de ser aceita em mais um grupo, e esse grupo é realmente especial. Claro, todo trabalho tem seus poréns, mas o fato é que caí numa alcateia de lobos anômalos. O produtor não é frustrado, pelo contrário, acabou de chegar aos 30 e me parece bem satisfeito na sua função. O câmera não reclama. ELE NÃO RECLAMA! (Isso pra mim já não é anomalia, é um milagre, só não é mais miraculoso porque ele não fala nada, então não reclamar é só uma extensão da sua personalidade). O editor não reclama que falta imagem, nem que sobra. Aliás, o editor é macho alfa da gang, o que é a maior anomalia que já vi. O outro alfa é o cara que cuida das contas e das pessoas, um pseudo-z... ah, deixa pra lá. 

Esse povo tinha uma ideia na cabeça e uma produtora nas mãos. E calhou de me convidarem para um projeto independente (projeto independente é o que você gosta de fazer, mas não recebe por isso) em formato de TV para internet. Claro, torci o bico pra dentro, sorri por fora, mas fui me acostumando à ideia. Eu gostava de TV fechada por falar com um público específico, isso traz muita liberdade. Agora... TV pra internet é muito foda, gente! Não impõe nada para as pessoas, é de graça, se você gosta do produto se sente bem em compartilhar, se você não gosta, simplesmente não assiste. Tão inteligente! Me apaixonei pelo conceito todo, e por isso também voltei a escrever.

E meio ainda sozinha, numa água de março a gente começou a gravar, e como pau e pedra correm juntos quando estão no mesmo rio, tudo acabou virando uma coisa só. Fazia todo sentido. Tudo é Rio. Tudo é 30. E nessa idade, eu já não aguento muito mais falar sem ser abordada pelas minhas próprias palavras DEPOIS, que saem sem permissão alguma, então tinha mesmo que ser livre. Demorou, porque projeto independente demora mesmo, porque você tem que colocar as coisas que pagam as contas antes e porque você não tem o menor motivo de fazer aquilo, então que seja bom de fazer. E o resultado é que agora o blog ganha um braço, que é um canal de TV no Youtube.

Nesse canal traremos registros de programas para se fazer no Rio que fogem da mesmice. Tudo com os olhos de alguns balzaquianos que gostam de comida bem feita, cerveja importada, lugares e pessoas interessantes. Ah, e todos são fãs incondicionais de Anthony Bourdain.

Espero sinceramente que gostem, porque vocês trilharam esse caminho comigo até aqui. Se não gostarem, gritem, que talvez eu escute no ouvido bom. E se fé é subir o primeiro degrau sem conseguir ver o resto da escada, tá tudo bem, né? Pode ser só problema de vista. Mas que dê pra gente ver o início, pelo menos.

***

Servicinho básico:

Agora o blog Rio aos 30 tem três produtos: o blog, o canal na internet (youtube.com/rioaos30) e a página no Facebook (facebook.com/rioaos30).

O blog continuará trazendo textos sobre esse universo de mudança, de Rio, de 30 anos. Independente do programa. Mas também vai trazer um texto referente ao lugar que conhecemos, para quem quiser o registro escrito. Já a página no Facebook será alimentada com informações diversas, serviço dos passeios, a trilha musical dos programas, fotos, etc. E o canal, obviamente, será a casa dos registros audiovisuais.

A equipe também pediu que eu fizesse uma apresentação à la Bell Marques, missão que eu cumpri com mestria, então aqui http://www.youtube.com/watch?v=dMpc445l6Ts
já tem um teaser demoníaco para vocês verem o que acontece quando a gente escreve o que pensa. As pessoas se vingam da gente. E nesse caso, foi o editor, que é Deus na televisão, ele faz o que quer e cria verdades (espero que essa frase melhore a nossa relação daqui pra frente).

No mais, continuamos nos falando pelo Facebook, e ah, sim, estreamos semana que vem!

domingo, 29 de setembro de 2013

O glamour da produção


-Você vai fazer o quê? Publicidade ou jornalismo?
-Jornalismo. Mas quero ser repórter de TV.
-Que legal! Por quê?

-Porque eu odeio ler.

Eu JURO para vocês que esse diálogo é verídico, e aconteceu comigo e mais uma menina na sala antes de começarem as provas pro vestibular da Ufes (a menina é que queria ser a repórter, veja bem), e não me perguntem o ano que “nem as máquinas do tempo voltam tão longe” (LOVATO, Demi, 2013). Esse diálogo é a personificação do conceito que as pessoas têm sobre a TV: a glamourização de um trabalho que na verdade é xexelento, minucioso, afogado em rolos de fita crepe, papel velho amassado no bolso, pó vazando na bolsa e bolsa com fundo preto de ficar no chão.

A expressão que dá título a esse post foi bem utilizada por uma amiga produtora, muito competente por sinal, que inclusive fez uma minissérie irônica e divertida de fotos no instagram denominada “o glamour da produção”. Nas fotos, ela aparecia sem medo sempre ridícula, com uma touca na cabeça, carregando um tripé pesado, suada, cansada... Porque é assim, é chato e cansativo, e só imbecis continuam fazendo isso porque gostam.  Por isso, hoje resolvi escrever sobre a equipe de TV, para quem ainda tem essa forte ideia na cabeça de que as pessoas são lindas e fantásticas, ah, como eu gosto de destruir as concepções alheias positivas. Mas vamos lá, uma equipe de TV é formada por:

O produtor

O produtor é um medroso doido pra aparecer na câmera, mas que não tem colhão de dar a cara à tapa. Achou realmente que é glamouroso ficar no telefone o tempo todo e que a TV era um mundo onde as pessoas em volta fariam o que ele mandasse.

Defesa: Como já estive nessa posição, e de vez em quando ainda produzo algumas coisas, vou defender a espécie: é triste quando a gente enfim descobre que o tal “poder” não passa de trabalho escravo e que o resto do mundo tá cagando pro que você faz, e muito mais, que nem entende como funciona, então você tem que explicar tudo timtim por timtim, e como é chaaaaaaato para caralho fazer essa porra, e a base da cadeia alimentar salarial, só mesmo os fortes permanecem produtores depois de fazerem 30 anos. (E sim, há os produtores que não querem ir para frente da câmera. Esses são os melhores).

O câmera

O câmera tradicionalmente é um mala reclamão. Passa o tempo todo torcendo para chover e a pauta cair. Sempre começa uma pauta com ares de diretor de fotografia da Discovery ou reclama que não dá pra fazer imagem alguma ali. Ele necessariamente vai reclamar também do trabalho do produtor.

O editor

O editor, então, é um  chato de galocha. Ele necessariamente vai reclamar do trabalho do câmera. Você vai ouvir três vezes na vida eles dizendo que chegou com a quantidade certa de imagens, o cérebro deles não permite que eles pronunciem essas palavras com facilidade, então é muito, muito difícil isso acontecer. Ou tem demais e vai dar muito trabalho editar, ou tem de menos, impossível trabalhar desse jeito.  E, independente do resultado,  fazem questão de dizer que sentiram falta DAQUELA imagem, uma coisa absolutamente impossível de ser feita, mas que ele jamais saberá disso porque não levanta a bunda da ilha de edição pra nada e não conhece o mundo real.

O apresentador

Um ego pretensioso, com um custo-benefício nas alturas, porque um macaco consegue falar esse texto e esse mané não, e ainda assim costuma receber mais do que os outros.

Defesa: como eu estou atualmente nessa posição, a defesa vai ser grande e começa com a pergunta: você já tentou fazer isso, seu fd putinha? Então para de achar que é fácil. Segundo, você não tem ideia de como é difícil se ver na TV. O seu ar pretensioso não passa de uma casca dura que você teve que cultivar ao ver que a sua boca é torta, sua sobrancelha é falhada, seu olho esquerdo parece que sofreu um derrame, e ainda por cima de vez em quando desce uma pomba-gira que te faz ficar com uns trejeitos escrotos que você não sabe de onde saiu, ainda mais quando fala o texto com tons de voz que surgem do nada. (Certa vez eu fui falar que uma cahoeira tem 40 metros e do nada saiu a palavra quareeeennnnnta que é piada interna até hoje, e todos os meus amigos filhos da puta ficam buscando no mundo oportunidades de falar esse número só para me sacanear.)

Finalizando, você vira um buda da apresentação quando para de lutar contra isso, porque já entendeu que é um tolo disléxico incapaz de fazer melhor. Com o ego esfacelado, você desiste e na primeira tomada fala “pra mim valeu”, que pelo menos assim o câmera não vai te odiar para sempre por ter que repetir essa porra mil vezes, ele já sabe bem antes de você que não vai ficar melhor.

O diretor executivo

O diretor executivo é um pseudo-zen que lida com pessoas e números. Você acha que essa fórmula dá errado? Dá mesmo! Por isso normalmente eles fazem ioga, ou são vegetarianos, essas merdas que passam a impressão de serem mega calmos. Deve ser para não ter que fazer terapia, ninguém em sã consciência consegue lidar bem com pessoas e números. Ou ele paga de zen pra te mostrar como você é um “desespiritualizado”, e se utiliza disso para negociar seu cachê, quê isso gente, dinheiro é só um detalhe na vida das pessoas, seu consumista de uma figa.

O diretor

O diretor é o cara que delega tanto, mas tanto, que depois tem que viver tentando provar sua real necessidade para o resto do grupo. Ele é importante quando dá uma merda maior entre os membros da equipe, aí seu ego infla num efeito baiacu fantástico e todo mundo em volta fica com cara de sardinha enlatada.

O cara do som

Hein? Quem é esse cara?

Pronto. Se você tiver um espécime de cada, já pode começar a fazer TV. É fácil, lindo e glamouroso. Boa sorte.

domingo, 22 de setembro de 2013

Rock in Tio



“Será que dá pra entrar com fruta na bolsa?”

(Oh, no. Quando você se preocupa com esse tipo de coisa ao ir prum festival de rock, tá na cara que passou da hora de ter feito isso).

“Tem certeza, posso colocar papel alumínio em volta? Não vão pensar que é uma dola de maconha não, né?”

(Ufs).

O fim de semana passado foi assim. Repleto de dúvidas das mais idiotas. Porque antes eu ficava preocupada em amarrar uma camisa xadrez em volta da cintura para não sentir frio. Agora tem que pensar em tudo, é uma operação de guerra! Não pode confiar na comida de lá, com certeza é “comida de menino”, pizza, cachorro quente e hambúrguer. Tem que se hidratar pra não passar mal. Aproveita toma um Engov logo, que amanhã você trabalha e não pode mais se dar ao luxo de fazer isso meio bêbada. Já fez, mais de um milhão de vezes, mas não dá pra fazer mais, porque... ah, porque não vale a pena.

Eu lembro a primeira vez que tive vontade de ir ao Rock in Rio, foi quando ouvi um vinil bicolor que minha irmã tinha ganhado de presente e gostei das músicas. Eu lembro que sabia que essa tal festa era muito especial, e me perguntava porque a gente (no caso, minha família, eu papai, mamãe, irmãos) não tínhamos ido pra lá. Mas a coisa ficou assim, tipo uma nuvem lá atrás. Não lembro que ano foi isso, mas não importa muito. Quem se lembra desse vinil sabe que isso foi em OUTRA ERA. Isso foi ANTES do RiR deixar de existir, para depois ressurgir das cinzas, agora, anteontem.

Semana passada fui ao festival pela primeira vez. Sinto que dessa vez a vida não me deu a oportunidade na hora certa, pra ser bem sincera. Isso era pra ter acontecido há uns dez anos, quando a preocupação era amarrar a camisa xadrez na cintura. Eu realmente queria ter postado uma foto no instagram fazendo beicinho e o símbolo do capeta na mão, mas não rolou, gente. Não que tenha sido ruim, mas acho que paguei caro demais pro show de rock celta maluco que, aliás, foi o que mais gostei, de tudo. Daí você fica pensando na infraestrutura... e elogia que o banheiro tava bem limpinho. Tem até uma certa vontade de descer na tirolesa, mas imagina o trampo para chegar até lá. Come a fruta que carregou na bolsa porque tá começando a pesar. E lembra de beber uma água de vez em quando.

O festival de fogos foi lindo! Depois começou Jota Quest e eu fui pegar uma cerveja. Fui cativada pelo rock celta e lá fiquei até começar a Alicia Keys. O show da Alicia Keys foi a coisa mais chata que me lembro de ter presenciado nos últimos tempos, e com certeza a coisa mais terrivelmente chata que já paguei para fazer. O festival virou um chill out gigantesco, todas se estapeia pra conseguir um metro quadrado no chão (pode ser o de cimento mesmo, o espaço no gramado acabou) para deitar e dormir. DORMIR! Não tipo bater um papo e esticar as pernas. Tipo dormir de conchinha e babar no braço do namorado. Assisti ao show todo, tentando acreditar que ia melhorar. Uma música lá melhorou mesmo, foi quando a Maria Gadú subiu ao palco. “É impressão minha ou a Gadú tá DANDO UMA FORÇA para Alicia? É, isso mesmo”. Que coisa.
 
 
Não aguentei. Fui embora antes mesmo de ver Justin Timberlake, o tal show mega blaster da noite. Foi até gostosinho, não peguei fila, vim sentadinha no ônibus de linha, ainda bem que não bebi demais, o motorista tava cascapeta, com certeza eu vomitaria se estivesse bêbada. E a gente chega mais cedo, dorme gostosinho na cama, minhas pernas estão me matando, a coluna então, tô sentindo cada desvio da lordose E da escoliose nesse momento. Se tivesse um Starbucks lá, eu até ficava mais. É isso, faltou um Starbucks. Porque a juventude toma ácido, e a gente fica aqui, órfão de um droga que o corpo ainda processa. Não é que eles sejam mais animados, é ácido, tô te falando.

***

Depois de uma semana, descobri, vendo televisão, que não cheguei sequer a conhecer o festival todo.
-Caralho, esse palco aí eu nem vi. PQP! Não acredito que eu não vi um palco gigantesco desse!

-Jura que você não viu? Tava do lado da montanha russa!

-Tinha uma MONTANHA RUSSA lá dentro????

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Atorvastatina Cálcica





Quero meu torresmo. Sou behaviorista, isso não é justo, ME DÁ MEU TORRESMO!
Esse grito tá preso na minha garganta desde a semana passada, quando eu voltei à endocrinologista. Então essa semana vou lhes contar mais uma aventura de uma pessoa com mais de trinta anos, achando esse fato limítrofe da vida uma coisa surreal.
Estava eu linda loira e japonesa, porém não magra, no inferno astral desse ano, portanto pré aniversário de 31 anos, portanto lá pelos idos de abril (calma, vou resumir essa história), e aí que eu desmaiei e aí que eu comecei a investigar porque isso aconteceu. Fui a alguns médicos, entre eles tinha que figurar na minha uma lista uma famigerada endocrinologista, para checar taxas, essas coisas que pessoas velhas fazem só para ficar comparando com os dos outros depois.

Primeira consulta

-Olá. O que te traz aqui?
-Um desmaio.
-Como é a sua rotina?
-Inexistente.
-De alimentação!
-Ah, tá. Tem dois tipos, o pé na jaca e o rehab.
-Como é o rehab?
-Suco verde pela manhã. Pão light com troço light dentro. Almoço é arroz integral, um grão, carne branca e vegetais. À noite, isso sem os carboidratos. Lanchinhos saudáveis. Comer de três em três horas. Tudo na quantidade certa.
-E o pé na jaca?
-Tudo igual, só que não.
-Vamos fazer uns exames para ver como estão as suas taxas. Volte aqui com os exames prontos.

Um mês depois, segunda consulta

-Deixe-me ver essas taxas. Meu Deus! Seu colesterol tá em 238! Triglicerídeos também tá alto, lipídeos também...
-Mas esse exame aí não tá falando a verdade. Eu estava em Vitória na semana anterior ao exame, e lá minha dieta é pé na jaca.
-Mas essa jaca é enorme, hein? Acho que você anda sacaneando muito o seu corpo.

*Status: sem vergonha

-O que você faz quando enfia o pé na jaca?
-O que todo mundo faz. Como muito. Muita carne vermelha. Queijo amarelo. Pão branco. Bebo litros de cerveja. E de vinho.
- E esse peso, menina? Você tá muito nova pra estar com esse peso todo. Sobe na balança!

**Status: gorda sem vergonha

-Vamos perder uns quilinhos? Quantos quilos você quer perder?
-Quanto quilos eu QUERO perder? Que pergunta é essa? Mil.
-Quatro quilos. Vou te mandar pra nutricionista.
-Tá bom. Você tem alguma pra me indicar?
-Você não tá entendendo. Tem uma nutricionista aqui na sala ao lado, vou te mandar pra lá agora.

(nutricionista): -Toma, segue essa receita aí por um mês. Depois você vai refazer os exames e mostrar novamente para Dra. Endócrino. E pode parar de beber tanto!

***Status: gorda alcoólatra sem vergonha

Aí se segue o que todo mundo já conhece: um mês de rehab, comendo alface nos fins de semana pra poder beber bastante. E depois de um funcking month sem chocolate com flor de sal, sem carne vermelha alavontê, sem garrafinha de vinho no final do dia, sem sorvete de chocolate com amêndoas, sem costelinha de porco com molho barbecue, depois desse jejum espiritual!.. eu refiz os exames. E foi aí que eu pensei, vou mostrar essa caralha para Dra. Endócrino e pronto, terei minha recompensa! Hoje tem torresmo com cerveja, negada!

Mas a vida. A Vida. É uma caxinha de surpresas.

Terceira consulta

-Como você se comportou?
-Muito bem.
-Vamos ver se você realmente se comportou muito bem. (Tipo professora de primário). Sobe na balança! (Tipo inspetora do segundo grau).
-Muito bem! Tá magrinha! Três quilos e meio? Se comportou muito bem mesmo! (Tipo professora de primário).

*Status: magrinha

-Vamos ver suas taxas... É. Lipídeos caiu muito. Triglicerídos também. Mas seu colesterol... aumentou.

(AUMENTOU, gente. Não existe amor no mundo. Eu me comportei bem, apertei a alavanca, porque o mundo não me retribui com o meu açuquinha? Por que eu? Por quê?????)

**Status: magrinha velha querendo dar uma voadora em alguém

-Vou ter que receitar remédio.
-Não rola uma farinha de berinjela?

(Na minha frente, um sorriso maroto de quem ouve uma piada mas não pode gargalhar)

-Não. Mesmo com a dieta seu colesterol AUMENTOU! Vamos fazer o seguinte: se diminuir bem com o remédio no primeiro mês, você controla com a farinha a partir daí. E agora? Você quer perder mais quantos quilos?
-Mil.
-Vamos continuar com a mesma dieta. Assim você volta mês que vem, com os exames refeitos, magrinha e linda!

***Status: magrinha velha potencialmente linda querendo dar uma voadora em alguém em especial

Aqui estou eu. Gastando a energia à vontade nesse teclado porque a sopa dessa noite é de músculo. Tem coisa mais cafona do que tomar remédio de colesterol, gente? Não tem não. 


Epílogo

Não sei ainda porque eu desmaiei, mas já decidi que vou parar de investigar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O direito de permanecer calado

 
Estou chegando a uma conclusão muito triste. Sempre estranhei o fato de tantos profissionais gastarem tanto tempo de suas vidas com o self promotion – essa é um expressão engraçada para designar isso mesmo que você deve estar imaginando, a auto promoção. Pensei que fosse algo pertinente à minha profissão, tão cheia de egos inflados e machucados, haja vista a exposição que sofremos cotidianamente, não é todo profissional que tem o seu trabalho sendo avaliado por um zilhão de pessoas todos os dias. Mas enfim, o meu desabafo de hoje é que não aguento mais as redes sociais entupidas de gente alardeando o próprio sucesso. Posso ser taxada de invejosa, amarga, whathever, mas definitivamente não é disso que se trata. É um sentimento ainda pior, é entender que as pessoas não conseguem – e às vezes não podem - mais ficar caladas.

Sempre lembro de uma lição básica que permeava a minha casa desde que me entendo por gente. Meus pais passaram muitos e muitos anos tentando mostrar pra mim e meus irmãos como a humildade pode ser gratificante. Claro, lá pelas tantas, meu pai já machucadíssimo de tanto trabalhar e levar as bordoadas que o “sistema hierárquico” (para não falar das pessoas) é capaz de lhe aplicar uma vida inteira, já me dizia, com toda a ironia do mundo, porque eu sei que ele de fato não acreditava nisso, enfim, dizia ele, “minha filha, de vez em quando a gente tem que fazer um self promotion. Esquece tudo o que eu te falei até hoje. No mundo é mais importante falar bem alto que fez do que de fato fazer”. Bela tentativa, mas óbvio que não deu certo, e continuo achando muito mais bonita uma pessoa poderosa e sexy do que carente e vulgar, e as duas podem estar se apresentando com a mesma roupa...

Há algumas semanas fui convidada por uma amiga a acompanhar um ciclo de palestras cabeçudíssimo. O tema é “o silêncio e a prosa do mundo”. Um monte de sociólogos, filósofos e afins estão perdendo seus tempos falando sobre o silêncio o que, em si, já é bastante paradoxal. E um monte de gente com tempo sobrando está destinando algumas horas semanais para ouvi-los, o que é o meu caso. Mas as palestras têm me feito pensar bastante sobre o nosso direito divino de permanecermos calados, que não está mais sendo protegido nos nossos dias. O silêncio, hoje, geralmente é mais carregado de significados que a própria palavra. Quer um exemplo prático? O meu. Eu era uma pessoa pública na minha terra natal. É normal que algumas pessoas me perguntem o que estou fazendo, já que “sumi da TV”. Tenho duas opções: alardear a todo instante o meu “sucesso” nas redes sociais, ou ficar em silêncio, e esta opção provavelmente significará, para muita gente, o meu fracasso.

Isso também acontece atualmente na esfera intelectual. Conversando com um amigo meu, professor, ele ratificou que não tem mais o direito de não ter opinião sobre tudo. As pessoas cobram que ele se posicione acerca de absolutamente tudo o que acontece. “Às vezes é mais fácil manter-se no âmbito das fotos de praia e receitas caseiras”, ele desabafou. “Assim que você se posiciona de determinada forma sobre algum acontecimento, todos esperam que você haja de forma parecida em outros”. Lindamente ele me falou sobre os papeis que resolvemos – ou temos que - desempenhar nas redes, e caí em mim, vivemos, senhores, no tempo da ultra-etiqueta.

Instagram, facebook, fotos de como sou linda, fotos de como minha vida é foda... Claro que se temos amigos, família, ainda mais morando longe, é interessante postarmos um pouquinho da nossa vida para eles acompanharem, e que sejam as partes boas, não acho que seria de bom tom a foto de uma bunda com a legenda “minha vida é cuzona”. E se temos um público, também considero importante alimentar um pouco da sua curiosidade, devolvendo o voto de confiança e a admiração pelo nosso trabalho. Mas tudo tem limite, gente. E ter que gritar aos quatro cantos o quanto se é especial não é mais alardear o sucesso, mas tentar angariá-lo nem que seja pelo grito.
Ainda lembro quando havia recém chegado aqui no Rio, um amigo de Vitória me disse uma frase que não me esqueci, “faça mais, fale menos”. Achei uma boa forma de reajustar os pensamentos na minha cabeça, já que me dei o direito de recomeçar. Não me entendam mal, sou meio viciadinha em instagram e facebook, acontece com todo mundo, e se estou reclamando do conteúdo que está lá é porque eu consumo. Mas estou achando cada vez mais cafona a forma como é utilizado tudo isso. Vai lá, pode me chamar de velha, mas o fato é que às vezes minha vida é tão cuzona que não tenho energia pra tentar provar o contrário em fotos. E às vezes ela está tão extraordinariamente maravilhosa que eu não lembro de compartilhar.