sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Shoppings e guetos



Sabia? Dá pra descobrir muito sobre um local indo ao shopping de lá. Não é tipo “um shopping do Rio” que estou dizendo. É mais “um shopping da Zona Norte”, ou “um shopping da Barra”. Nunca fui de fazer turismo em shopping, mas morando aqui já fui em alguns e posso dizer que eu estava enganada, eles não são todos iguais.

Vou começar pelo Rio sul, porque se tem algum shopping que é “um shopping do Rio”, é o Rio Sul. Ali no hemisfério Botafogo-Copacabana, ele é um típico centro blaseé de turista que precisa resolver alguma coisa ou passar o tempo. É igual a qualquer outro do mundo, digo, dos mais tradicionais, e a única coisa que muda é uma pintura muito, muito feia na fachada desse shopping em especial que te lembra “ah, é o Rio Sul, tem a pintura feia”.

Já fui também no shopping Tijuca, obviamente, já que é o mais perto da minha casa. Ali sim tem a cara da Tijuca! Aquele montaréu de gente entupindo a praça de alimentação o tempo todo. O cinema, então, nem se fala... Todo tijucano adora um shopping, deve ser o trauma da praia ser longe, mas ainda ter um dinheirinho no bolso pra gastar com lazer. Dá nisso... Os cinemas desse shopping são os mais frequentados DO BRASEEL, minha gente. Cheio de gente que se arruma pra ir em shopping, cheio de fila porque não compra pela internet, cheio de filme de Homem Aranha. Insuportável.

Mais pro lado de lá tem o Iguatemi, que é a alegria de quem mora em Vila Isabel. Mas o cinema não é tão bom assim, já me avisaram. Não é tão 3D, e já que pra furunfar no cinemão hollywoodiano, que tenha uma boa pipoca com gosto de glutamato monossódico e um três dezão. É um pouquinho mais classecê, mas ainda não fui em um shopping beeeeeemmmm classecê pra dizer, deve ter algum voltado mais especificamente ainda para esse público, esse povo tipo eu e você.

Mas se você quer fazer uma viagem antropológica pelo mundo da riqueza, aaaaaaaaaaaaaahhhhh, se prepara que eu guardei o melhor pro final. Dizem que existe um shopping muito, muito rico aqui no Rio, é o Fashion Mall, ali em São Conrado. Nunca fui, mas entra no site que você vai entender, tem hashtags #must have, sessão de instagram do shopping e o link “praça de alimentação” se transforma em “gastronomia”. E tem outro que é mais rico: é o Village Mall, na Barra da Tijuca.

Obviamente que fui lá no Village Mall para outro assunto, qual seja, assistir a uma peça de teatro, e me deparei com o doce mundo da riqueza. É legal, gente. Sinto muitíssimo, mas é legal. Aquele chão de quadrados gigantes de porcelanato brilhante. Aquele pé direito altíssimo com obras de arte que te fazem olhar o céu. Aquele céu, que aparece porque o teto é de vidro. Aquele chão de madeira da praça de... gastronomia, com aqueles restaurantes que combinam com aquelas lojas, Prada, Armani, Gucci, tudo um do ladim da outra, igualzinho no Saara, só que não. O silêncio que se escuta lá...  é tão gostoso! Porque pobre gosta de gritar tanto, gente? Rico fala baixinho, a música é tipo... ambiente, aposto que foram lá pra gravar os passarinhos que cantam no metrô. Aqui na Tijuca a gente só ouve uma massa grossa de mil vozes, criança chorando, bandejão de comida caindo no chão e arara, não é passarinho, piu piu piu, não, é AAAaaa AAAAaaa das araras da floresta da Tijuca, achei tão bonitinho e selvagem na primeira semana, agora podem matar essas malditas aves do inferno, pior que elas só as malditíssimas calopsitas piando a porra do hino do Flamengo sem parar.

Não.... vamos voltar pro shopping silencioso! Aí que lá você tem que ir no banheiro. Sabe? Não precisa tocar em nada, que quem precisa tocar em tudo é pobre. Você chega lá e a descarga é por sensor. Tem cheirinho de banheiro limpinho. E tem as moças dos serviços gerais, hahaha, essa é a melhor, gente, vocês TÊM QUE IR LÁ só pra isso, elas vestem uniforme de empregada da novela das oito, tipo Nina, juro pra vocês.

Quero ter mais algum motivo pra ir pra lá, que é tudo tão maravilhoso, mas é na Barra.

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Minha estação preferida




Começa assim: a gente é meio que obrigado a frequentar o lugar e acaba se acostumando. Como em Vitória era a linha 124 – Estrelinha, que me levava pra tudo quanto é lugar, morando em Jardim da Penha como morei. Dava um calorzinho gostoso no coração quando eu via ele aparecendo lá no final da rua, e vinha à minha cabeça: essa é minha linha de ônibus preferida.

Coisa assim só tem quem vive. Quem está lá por um tempo, e acaba criando laços com coisas inanimadas que se movem, coisas vivas da cidade. E agora já posso dizer que tenho uma estação preferida aqui no Rio. Já decidi. Sou apaixonada pela Cinelândia.

Foi amor à primeira vista, na verdade. Quando vi a águia exuberante do Teatro Municipal, abrindo as asas por sobre a praça de prédios antigos, me senti em casa instantaneamente. Quis a cidade que o trabalho surgisse pros lados de lá também, e que os ônibus não fossem tão eficientes quanto subir as escadas do metrô e dar de cara com aquela praça. E tudo fica mais bonito e apaixonante no inverno, então, senhores, para quem gosta do Rio minha sugestão é que venha pelo menos uma vez nessa época do ano, e que ganhe pelo menos uma tarde na Cinelândia, e agora eu vou explicar mais  por quê.

A Cinelândia, estou dizendo para vocês, é mágica. Ela tem histórias, edifícios gigantes e fantasmas, com certeza muitos fantasmas bem vestidos ficam por lá, no alto das torres engenhosamente colocadas em cima dos prédios velhos. Se eu fosse você, ia fazer uma visitinha no Teatro Municipal, que nem é preciso ir a um espetáculo propriamente dito, lá tem visitas guiadas para se conhecer o prédio, e é baratinho, e é assim também em vários lugares do redor, como a Biblioteca Nacional, por exemplo. E lá, se eu fosse você, também inventava de fazer uma pesquisa qualquer, mas procure na sessão de edições raras, só para ter a sensação de ficar sentado numa mobília estudantil pesada de madeira esperando seu livro velho velho velho mofado chegar.

Quando a pesquisa terminar você estará com fome, porque você provavelmente vai ficar pelo menos um par de horas com os olhos grudados no livro velho sem perceber, que lá os relógios andam conforme o tempo de quem escreveu viveu, e ficar duas horas num livro é normal para um dia que não tem tanta artimanha para comer o nosso tempo como hoje. Então você pode ir para o prédio da Justiça Federal, tudo aqui no Rio vira centro cultural e a Justiça não ia ficar de fora, com mais um prédio lindo e exposições fantásticas. E a fome você guarda para o café que tem no próprio prédio, sugiro o pão delícia, que é um pãozinho tipo de pão de batata com recheio de requeijão, com um capuccino, que combina bem, sim, com os dias frios daqui.

Requentados, podemos seguir caminho antes que a luz diminua demais, e agora minha sugestão é que você caminhe um pouco, até o aterro, para digerir o cérebro. É que no inverno do Rio as árvores do aterro ficam espetaculosas, todas se entregando à explosão de uma cidade que não vê, mas percebe, de canto de olho, uma presença bem vinda, elas tem que gritar de cor para que alguém olhe em sua direção. Mas se você vê, são tão bonitas que hipnotizam... e no trevo exatamente na frente do aeroporto, reparem, tem uma árvore com um caule de diâmetro tão  largo que parece uma cobra que comeu demais, e ela está sempre lá, digerindo toda a seiva do mundo, é a Árvore Fofa, que me dá uma imensa alegria sempre que se mostra, não ache que sou louca que te dou certeza, se você vir a Fofa também vai pensar “Árvore, me dá um abraço”.
 
Se ainda tem massa cerebral e pernas, aproveita que tá do lado do MAM. Se cansou desse lugar, volta então pra praça, que tem o Museu Nacional de Belas Artes, a Livraria Cultura e o Teatro Dulcina, este com cadeiras de madeira, uma sala pequena, preços acessíveis para peças fantásticas. Mas se seu lance for cinema, ali está o Odeon, que é pecado não entrar, vira essa boca pra lá. E depois desse dia, pode sentar num dos bares da praça, que ficam cheios de gente querendo viver o lugar, o mais tradicional é o Amarelinho, se me permite, peça o chopp e uma porção de codorna, e a pequena ave fecha um dia que você não vai esquecer, garanto, não vai não, que os fantasmas te perseguem depois ainda que você entra de volta pra terra, no buraco que te leva de volta para a a nossa década.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

As maravilhas e agruras de se viver numa cidade turística



Sabe quando você sai de férias e cada dia parece que é o último da sua vida? Você não tem mais pernas de tanto andar, mas acha que vai perder tempo se deitar para descansar? É assim que eu fico numa cidade desconhecida. Bom, inclusive ela pode ser conhecida, que é muito sofrimento perder momentos desses dias tão preciosos com coisas como dormir. Turista que é turista mesmo não dorme, come mal, bebe o dia inteiro, anda a pé mesmo, olha para todos os lados. E tem um sentimento maravilhoso de que o mundo vai acabar amanhã.

Morar numa cidade turística é, em certo grau, conviver um pouco com isso. Porque as pessoas estão lá, nas ruas, a todo momento, e é impossível não sentir essa energia no ar... Gente que veio ver araras cruzando os céus, macacos nas árvores, mulatas seminuas nos semáforos... Os turistas podem não encontrar tudo isso, mas o sentimento de gratidão que têm por estarem de férias é fascinante e contagiante!

Uma das coisas que eu mais gosto de morar numa cidade como essas é não ter muito horário para as coisas. Almoço? Isso pode acontecer entre 11 da manhã e oito da noite. De verdade. Muitos restaurantes nem fecham, ficam até o início da madrugada abertos, e você pode escolher se quer japa, thai, português, árabe. Tem brasileiro também, mas é mais caro.

Quando vou à praia, que maravilha! Tudo já está lá, bunda pro sol esperando eu chegar: as cadeiras, as sombrinhas, a cerveja gelada dentro de um isoporzinho com pedrinhas de gelo. Tudo tem um preço, mas bem pago se pensar o que seria carregar isso no metrô. Porque não dá pra ir de carro, meu bem, esqueceu disso? Não existe vaga. E taxista tem preconceito com roupa de banho, mesmo as secas.

Banheiro tem na praia também. E canga, esfirra, mate leão e biscoito Globo. E se você quiser se prestar a esse papel, pode até bater palma pro pôr-do-sol no Arpoador e não sair de maluco. E depois pode ir para uma festa, do jeito que você quiser, porque em cidade turística tem festa todo santo dia da semana!

Ah! E os amigos, que sempre vão te visitar? Morar em cidade turística é assim! Casa cheia nos feriados, aquela alegria, se você gosta de receber, assim como eu, vai se sentir sempre muito bem acompanhado, que não faltam visitas, principalmente no verão, e o clima é mágico, cervejinha no happy hour, galera que vem querendo ver as coisas maravilhosas que a cidade oferece e você no centro disso tudo, de guia, compartilhando com todo mundo o que já descobriu.

Essa falta de rotina é linda. Cada dia é um dia muito especial, e sabe por quê? Porque você está no Rio, meu bem. Essa terra maravilhosa onde todo mundo quer estar e que tem gente de todo o mundo, você ouve língua estrangeira em todos os cantos, pode usufruir também de outras culturas em um bate-papo diferente a cada dia se quiser. Além da paisagem fantástica de cartão-postal que parece coisa de cinema.

Agora, como nem tudo são flores, também existem as tristezas de se viver numa cidade turística. Para começar aquele monte de gente que acredita piamente que chegando no Rio vai ver araras cruzando os céus, macacos nas árvores, mulatas seminuas nos semáforos. Porra! Pelamor! Vai ver desenho animado de arara e pensa que é assim? É uma gente chata, que não compreende porque você está puto. É porque alguém tem que trabalhar nessa joça dessa cidade para criar riqueza, né não? A vida não é um mar ladeado de Favela Vidigal não, filhinho. Você fica aí, empesteando os colchões dos hostels de percevejo e quer trepar com a mulata do samba sem usar desodorante porque sua sobrancelha é tão branca que parece uma lontra albina? Tudo bem que brasileiro é bom anfitrião, mas tudo tem limite, e amanhã eu acordo cedo.

E ainda bem que os restaurantes ficam abertos até mais tarde, porque quem não tem horário fixo pode acabar ficando sem almoço. Principalmente se for no Centro, porque lá, ah, lá os restaurantes fecham mais cedo, lá ninguém se diverte, o Centro é profissional. Mas tem os lugares abertos para sempre, Bar da Urca, Copacabana, Ipanema, e você pode almoçar qualquer hora que quiser, e também pode pagar oito reais num pastel, alguém tem que pagar os turnos dos funcionários, que seja você, que resolveu almoçar tarde, Deus ajuda quem cedo madruga, o corpo precisa de alguma rotina, faz mal pra saúde ficar sem comer por tanto tempo.

Mas o fim de semana chega, e ainda bem, que você também quer fazer parte em algum momento da vida dessa boemia estampada nas caras desses caras de pau que querem farrear de segunda a segunda, um dia seu fígado acaba meu filho, vai esperando, mas você está no Rio, tem que beber Antarctica e cachaça até vomitar, tá certo. E aí você resolve pegar uma praiana, é extorquido pelo ser humano das barracas, porran, essa cadeira custava três reais semana passada, agora é cinco por quê?, a micose que mora nela tá começando a cobrar pelo aluguel também? Relaxa, você está numa das praias mais bonitas do mundo, no meio de um centro urbano maravilhoso, estique as pernas, feche os olhos e... SALGADOXARABEEEEEEEEEEEE vai ser um grito que te acorda, quer dormir pra quê, ficasse em casa, BIXCOITOXGLOBO, MATEEEEEEEEEEEEEEEEÊÊÊÊ, já disse, leva seu lanchinho pra praia se não quiser se empanturrar de farelo de polvilho, acho que esse povo trabalha mancomunado, passa a farofa primeiro, depois o mate pra desobstruir sua garganta nesse calor infernal. Por fim, você pode ir bater palma pro pôr-do-sol no Arpoador, se quiser. Seu retardado.

Ah! E os amigos, que sempre vão te visitar? PUTAQUEOSPARIU!!!! Isso não acaba gente! Não existe mais feriado em paz. Sempre tem um féladaputa enchendo a sua casa de areia e perguntando qual é a melhor forma de chegar em Copacabana. Porra! Olha o Google Maps! Quando é amigo, vá lá, que você manda se fuder quando te cansa, mas e quando é conhecido? Pode ter certeza, você vai ganhar muuuuuuitos amigos quando se mudar para uma cidade turística.

Isso se não for Natal, Reveillon, Jornada Mundial da Juventude, que aí o metrô para, ninguém chega em Copacabana, ninguém chega na Zona Sul, ninguém se desloca embaixo da terra, em cima muito menos, e você que tem que trabalhar, você que tem, problema seu, vai fazer concurso para trabalhar em Roraima se não gosta de morar em cidade turística, e olha que lá é do lado da floresta, deve estar cheio de gringo também, essa gente enjoada que não faz a menor questão de aprender a nossa língua, sem preconceito por favor que sou contra xenofobia, coisa triste isso, mas essa gente, estou te dizendo, essa gente vive como se o mundo fosse acabar amanhã, o melhor é compartilhar a paisagem de cinema com todo mundo, mas pode ser do seu sofá, que a casa fica limpinha e também pega a Globo.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A terrível experiência de se fazer compras no Rio


 
Se você não for católico fervoroso e não estiver a fim de fazer a peregrinação por aqui junto com a galera da Jornada Mundial da Juventude, pode ir ao supermercado. O programa é parecido, pelo menos no que diz respeito ao tempo e à dedicação.

Para começar, não dá nem pra chamar de supermercado essas mercearias que os cariocas têm.  Com corredores apertados, mal dá pra passar um carrinho, se vier alguém na sua contramão já era. Daí você tira o teeeeempo que leva pra pegar tudo e chegar ao caixa. Se bem que não vai demorar muito – o preço dos artigos de higiene pessoal são tão caros que não dá pra comprar no supermercado. Também não tem muita variedade: marcas de shampoo, condicionador, desodorante, sabonete, pasta dental, tudo isso, o conselho é comprar na farmácia, muito mais barato. E não adianta fidelizar: eles fazem questão de trocar as marcas das coisas a cada semana! Triste vida, quando algum amigo vem me visitar e resolve propor de cozinharmos um prato determinado, eu tenho que explicar que por aqui não se escolhe o cardápio antes de ir ao supermercado, vamos ver o que tem por lá e daí a gente pensa, tipo coisas da época, na roça, só que não.

Existe um problema parecido com a sessão de higiene pessoal que é a sessão de hortifruti, e o problema é que não tem. Não tem nada de  folha. Nada de ervas frescas. Os legumes, como Capitu teria se uma cenoura fosse, têm casca de ressaca. Certa vez procurei durante um tempão por batatas inglesas e, não conseguindo achar o produto de jeito nenhum, me dirigi a um repositor, que logo me afirmou que estava em falta. Perguntei a ele se já estávamos vivendo a terceira guerra mundial e ele não entendeu. Fora o preço: já paguei cinco reais num maço de rúcula, gente!

A jornada continua quando você crê que está levando pra casa um produto em oferta. Mas ofertas, no Rio, são necessariamente enganosas – ou o produto não está disponível, ou a informação veiculada está errada, ou a foto está errada, ou você nem vai perceber, porque confiou que o preço era aquele da etiqueta e na hora de verificar a nota fiscal viu que pagou bem mais. Aliás, prática comum é não bater o preço da etiqueta com o do caixa. (Vou tentar refazer mais uma vez essa frase, corretamente agora), QUANDO TEM UMA ETIQUETA identificando um preço tá ótimo, normalmente não varia muito no caixa, aquela etiqueta, vocês sabem, talvez o povo carioca tenha ficado tão acostumado com os tempos de inflação ao dia dos anos 90 que não se importa pelo fato de o preço variar do momento que você pegou o artigo até pagar, o engraçado é que às vezes eles erram para baixo, e não adianta tentar ser honesto e tentar pagar o valor cheio, desculpa mamãe, essa manobra pode levar uns dez minutos só para alguém aparecer e verificar a etiqueta, ficam então elas por elas, o que se paga a mais devolve-se no que fica por menos, que no Rio não tem preço, tem estimativa.

Aí você está no caixa, se for no Pão de Açúcar vai ouvir “cliente Maixxxxx?” e tem que responder rápido, como se o resto do serviço todo acompanhasse a urgência da mocinha de maquiagem de olhos bicolor, elas estão sempre num dia péssimo. Se for no Mundial ela vai te perguntar  “é no dééééébito?” e se acaso você disser, “crédito”, ela vai encher a boca pra retrucar “aqui só aceita débito”. E se você for no Apolo, não adianta gritar que levou sua sacola retornável que elas vão colocar saco plástico até na sua cabeça para ver por quanto tempo você consegue ficar na apneia. E se for no Zona Sul eles vão fingir que o serviço é bom. E se for no Prezunic, Princesa, Rede Mais, Redeconomia, Extra, não adianta, não falta rede de supermercado aqui e nada vai te impedir de seguir sua peregrinação pelo hortifruti e pela farmácia depois disso tudo.

Para completar, existe por aqui o que eu denominei de “fenômeno cem reais”. Vai fazer um macarrão à bolonhesa no fim de semana? Então macarrão + molho de tomate + carne moída + manjericão = R$100,00. Esqueceu o manejricão? Volta no supermercado e compra = R$100,00. É sério. Não se esqueçam de nada. Façam listas. Repassem. 

***

Prefiro fazer compras num Perim em chamas que num supermercado do Rio de Janeiro.

sábado, 20 de julho de 2013

O que já sei sobre os cariocas


Eles não desviam quando vêm na sua direção. Se você não desviar, tromba em um monte de gente;

Eles estão acostumados a repartir o espaço público. Dividir uma mesa no shopping é normal. Ocupar um espaço de no máximo 30cm3 num bar é super normal;

Eles estão acostumados a pagar muito caro por tudo, e acham que é normal por terem a paisagem do Rio (mesmo  que a paisagem fique na Zona Norte);

Eles amam a cidade;

Eles gostam de ficar na rua. Não marcam muitas coisas em casa, e quando é em casa, é no salão de festas;

Eles improvisam, estão acostumados a dar um jeito pra tudo. Muitas vezes isso tem como consequência pequenos casos de desonestidade que são bem aceitos socialmente;

Eles gostam mesmo de futebol. Quartas-feiras são mortas na cidade, todos estão nos estádios e ouvem-se gritos nas ruas o tempo todo;

A primeira opção de cerveja é Antarctica;

Eles reclamam muito quando se sentem injustiçados;

Eles são gentis, e não perdem a oportunidade de conversar com você. Sobre qualquer coisa, em qualquer lugar;

Eles aproveitam o fim de semana inteiro, que começa na quinta à noite e termina na madrugada de domingo para segunda-feira;

Eles amam feijoada e fazem dessa um programa de domingo;

Eles amam botecos e bolinhos de qualquer coisa;

A programação do fim de semana divide-se em sol: praia; não sol: outras coisas;

O Rio é um grande cidade do interior, todos conhecem a vizinhança, falam com as pessoas dali, dão bom dia sempre;

Eles são bairristas;

Eles realmente gostam de samba, pagode, samba rock e qualquer vertente que saia daí. E de Roberto Carlos;

Eles dirigem como loucos, buzinam alto quando o sinal abre, são intolerantes, não respeitam faixas. Os carros se comportam como sardinhas em um cardume, todos se jogam para o mesmo lado, ao mesmo tempo, num reflexo impressionante;

Os homens são cavalheiros, as mulheres são românticas, mesmo que o final da expressão de tudo isso seja só vontade de fazer sexo casual;

Na média, são bem politizados;

Apreciam arte de todos os tipos;

Se podem, defendem os mais fracos com veemência;

Eles saem da casa dos pais mais cedo, aprendem a viver a vida adulta antes, mas mantêm a juventude por mais tempo;

Os velhos ou deficientes não são dependentes. Eles saem sozinhos e pedem auxílio ao primeiro que passar, se for necessário;

Eles preferem ficar em pé nos bares;

Eles têm plantas em casa. E na calçada de casa;

Eles falam “deu ruim”;

Eles estão acostumados a dividir sua vida privada com os vizinhos, pela janela;

Eles não viajam, porque como o reveillon é o melhor em Copa, o carnaval de rua dos blocos é imperdível, o Natal precisa ter a árvore da Lagoa oleiaô, realmente fica muito complicado dedicar algum tempo ao resto do entediante Brasl (eles viajam nas férias, mas para outros países);

“Diga-me que praia frequenta que te direi que tu é”;

É normal ser servido antes de entrar no bar, ainda na fila;
 
Eles não são tímidos;

Eles são amigos leais.

sábado, 13 de julho de 2013

Uma thirtynager na academia



 
Vocês sabem, essa geração saúde pode encher muito o saco de quem já viveu três décadas. Primeiro por pura inveja, segundo por... algo parecido com inveja, que é raiva mesmo. Isso porque todos dizem que você precisa fazer exercício físico, e com a vida agitada como anda, o jeito é começar a frequentar uma academia, haja vista que você ao menos tem o direito de ir o horário que quiser, e isso muitas vezes estende-se até meia noite, quiçá 24 horas, aumentando um pouco as suas oportunidades de não faltar e em muito as horas de culpa.
 

Mas como, voltando, a gente começa a puxar uns pesos e o meu desabafo de hoje é que essa pode ser uma missão inglória para quem aproveitou muito bem a adolescência e a juventude entre rocks, bebidas, cigarros e junk food. Tá vendo, antes de começar a falar a gente já assume a responsabilidade pela humilhação que passará nesse inóspito ambiente! Aquelas meninas de macacão colado no corpo que ficam te acusando de não priorizar a sua vida direito, as bundas perfeitas passando na sua frente e inquisidoramente te lembrando de cada noitada com final de sanduíche podrão, e todos os cabelos lisos e braços que podem dar tchau que até o Papa vai ver lá da sacada de onde ele resolver se embrenhar, Papas são assim, estão sempre acenando de sacadas, e as jovens das academias de hoje também, tenho certeza que só para humilhar quem não pode e se fode no tríceps diariamente achando que ficar do jeito que está já é uma batalha vencida contra o tempo.

 

E os assuntos que necessariamente nos marginalizam, não garota, eu não gasto meu salário com herbalife e whein protein, isso é castigo, aaaaaaaaaahhhhhhhhh bem se vê porque está esse bagaço, olha aqui minha filha, quando você começou a peidar de tanto tomar clara de ovo em pó eu já fazia ultrassom abdominal completo pra saber se meu fígado permanecia no mesmo lugar, sim, uma boa parte da renda minha casa é gasta em vinho e grana padano e não, não acho que dá pra almoçar shake porque cresci numa cultura em que ALMOÇO é algo quentinho e sólido.

 

Isso porque só falamos da inveja, ainda tem a raiva, que é aquele sentimentozinho barato quando uma dessas vadias te olha com cara feia como se você não tivesse o direito de usar um aparelho só porque está colocando a mesma carga há três meses,"essa gordolenta atrapalha minha série alternada com esse pesinho que não faz cosquinha numa mosca", enquanto os homens urram, uuurrraaahhhh, urram nos aparelhos porque urrar faz crescer mais o músculo do braço, pelo menos não tenho que reclamar que a situação  constrangedora está em olharem minha bunda toda vez que passo, que definitivamente isso não acontece. Diante dessa situação, resolvi mudar completamente minha vida e nunca mais passar por isso, e como deixar de fazer exercícios não é uma opção já encontrei uma solução,entrei numa academia da terceira idade.  

 

Não é propriamente da terceira idade, quer dizer, não é oficial, mas é frequentada apenas por simpáticos que já passaram pelo menos dos quarenta e te digo de coração que o horário que vou sou a mais jovem. Gente, que liberdade! Primeiro que nunca mais gastei dinheiro com roupa de ginástica - vai as velhas surradas mesmo, estou preocupada é com a MINHA SAÚDE. Segundo que não tem aquelas músicas chatas da moda que são obrigadas a passar todos os dias na academia, lá no meu templo de malhação só toca JB,  que é a versão Antena 1 do Rio, "Vida vida vida, que seja do jeito que fooooooorrrrr..." não na voz do Daniel, ou qualquer que seja esse sertanejo que está na moda por causa da novela. É na voz da Betânia. Mais cafona, mas com alguma dignidade.

 

Seja do jeito que for, sou a mais jovem do espaço, não preciso ouvir isso não. Solto a Blondie na maior altura nos meus fones, escuta aí também pra ver se você não vai me dar razão que essa batida é ótima pra caminhada, http://www.youtube.com/watch?v=WGU_4-5RaxU, viu, a gente não perde o foco na esteira com uma boa música dessas. Tem mais vantagens, minha autoestima está recuperadíssima! Sou a primeira da turma! Pego mais peso que todo mundo, com exceção de umas malucas viciadas em endorfina e uns velhos que malham desde 1985 e a gordolenta aqui já ouviu umas três vezes a deliciosa pergunta, "me responde minha filha, porque uma menina jovem e com um corpo tão bonito vem malhar"? e primeiro eu aprecio devagar as palavras, depois respondo "quê isso, meu corpo já não é mais aquelas coisas", só pra ouvir de volta "que nada", então eu arremato com um "essas roupas são ótimas, por baixo está tudo caindo", e de novo "de jeito nenhum, você está ótima" e aí dou só um sorrisinho de lado, para ficar no ar que estou sendo simpática e humilde em vez e apenas sincera mesmo.

 

Hoje até fui num café da manhã junino gente, que beleza, estou frequentando programas sociais de academia, coisa que eu já jurei pra mim mesma que jamais faria, e ó, tinha bolo de milho, cuscuz, canjicão e mais uma série de delícias que jamais teria em outra situação, mesmo numa academia quem se encontra pra comer fruta, gente? Enfim, por essas e outras estou inlove com esse meu novo achado. Além da mensalidade ser a mais barata que existe no Rio de Janeiro, obviamente. Claro que os aparelhos são antigos, mas quem se importa, o exercício é o mesmo! Lógico que o único professor não tem como acompanhar todo mundo, mas com uma lordose, uma escoliose, um nervo ciático inflamado, chega de listar meus probleminhas, bom, nem que ele ficasse 24 horas olhando pra mim não conseguiria fazer o milagre de desaparecer com minhas dorzinhas.


E de vez em quando tenho que acordar um simpático velhinho que dormiu no aparelho, acontece, o de abdominal então que é sentadinho é direto, mas a gente compreende, academia dá um sono... E nada paga meu showzinho final, quando boto meu esqueleto para correr em 9,5 km/h ao som de Maniac por quinze minutos, http://www.youtube.com/watch?v=8NjbGr2nk2c, saio roxa da esteira e só falta me aplaudirem, thirtynagers não precisam nem de esteira para suar, a gente aprendeu a correr com a Jennifer Beals, parada no mesmo lugar, só já aposentamos o maiô e a polaina, mas capricha que pode ser que um pitbull esteja te olhando enquanto você faz isso, uuuurrraaahhhhhh!!!!

sábado, 6 de julho de 2013

Currículo, Honk Kong e bolas de sabão

 


Engraçado como a gente pensa umas coisas inúteis sobre a vida quando faz trinta anos. Outro dia eu estava atualizando meu currículo e rindo sozinha, se eu colocasse tudo o que já fui nego ia achar muito estranho. Vamos lá: comecei a fazer teatro com uns onze ou treze anos, não lembro direito. Com quinze fiz minha primeira campanha publicitária profissional, mas antes já ganhava um dinheirnho nas peças e como modelo fotográfico e de passarela, e gastava tudo indo acampar sem nenhuma infraestrutura em Itaúnas, e sempre ficava mais tempo do que avisava à minha mãe que ficaria, e sempre ligava tarde demais para avisar já que só tinha um orelhão na cidade. Antes disso fui uma espécie de “promoter” de banana boat, que meu pai comprou com um tio, pena que o treco não funcionava, era o trabalho mais divertido que alguém novo poderia querer. Ah, já fui barlady também, fiz um mini curso de preparo de bebidas inclusive, muito interessante, falava das partes, as densidades de cada coisa, uma parte de licor, duas de suco, uma de destilado, pode experimentar que dá certo.

Que mais? Mais muitos comerciais, e trabalhos B bizarros da agência de modelo, tipo recepcionista de evento, isso era ótimo, era só sorrir quando o evento era de fora, não esperavam que você falasse qualquer coisa a mais que good night, ainda bem, senão ia ficar bem mais difícil conseguir aqueles cem reais. Já fui nerd, era do tipinho que passava bem em concursos (para onde diabos foi essa parte, gente???) e depois veio a faculdade, claro, tinha que ser mais específico, mas tentei rádio, redação e TV, acabei sendo abduzida pela linguagem que já me era mais familiar. Mas também teve espisódios de freelas de assessorias de imprensa, e uma vez que fiquei rodando com um camarada famosinho do mundo do reggae no Cacareco (esse era o nome do meu carro) e eu tinha acabado de tirar carteira e não sabia dirigir direito, e me perdi um dia inteiro tentando encontrar um restaurante em Vila velha e naquele dia atravessei a ponte mais vezes do que o carro-guincho da Rodosol. Acho que essa história nem meu amigo sabe, ele que sempre fala, “lá vem Helena com alguma história do seu currículo esquizofrênico”, mas o de quem não é, se a gente inventasse de incluir essas coisas?

Foi assim que eu parei para pensar, a gente sempre edita essa história, não é? Sempre passa uma imagem, de acordo com o cargo que estamos almejando. Mas quem sou eu de verdade? Sabe, quando era mais criança, pra adolescente, minha família me acusava de “não ter personalidade”.  Eu era taxada de ser maria vai com as outras. “Fulaninha começou a fazer isso, agora Helena quer fazer também”. E muitas vezes eu respondia, é, ela fez, eu vi que era legal, me interessei. Aquilo não me aborrecia muito, apesar de eu achar muito pesada a acusação. Mas realmente, o que é a personalidade? Quer dizer, não é o somatório das coisas que a gente vai imitando dos outros porque gosta? Ou, melhor explicando, não é o conjunto de características que vemos nos outros e nos agrada? Não dá pra tirar as ideias do nada, e eu com certeza ia experimentando e reproduzindo as coisas das quais gostava. Talvez a prática tenha sido esdrúxula e veio mesmo com a naturalidade de encarnar personagens no teatro. E essa tal da personalidade era uma ideia intangível demais para mim, somos o quê, tipo “A Coisa”, uma meleca mais ou menos determinada que nos especifica? Ou tipo uma bola de sabão que guardasse tudo que sou dentro... É isso, naquela idade era mais uma bola de sabão, refletindo e mudando de cor segundo o mundo estava ao meu redor. 

Acho que essa definição é a mais próxima do que seja meu meu próprio verbete de personalidade, como “o conjunto de coisas dos outros que você gosta e pega pra si”. Então velhice é quando você “já tem muita cor e preguiça pra espelhar e começa a emitir uma iridiscência própria”. Aí outras pessoas começam a “gostar de você pelo que você é”, e também tem gente que te reproduz. E então dá vontade de apresentar todo mundo a todo mundo, porque amigo de amigo é mais próximo do que a gente imagina, tem uma intersecção, que sou eu, espelhando algumas cores de um e de outro, apesar da preguiça tem cor que vale a pena.

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Vou terminar de atualizar meu currículo sem deixar de incluir o curso de gastronomia online da universidade de Honk Kong que comecarei semana que vem.