domingo, 29 de setembro de 2013

O glamour da produção


-Você vai fazer o quê? Publicidade ou jornalismo?
-Jornalismo. Mas quero ser repórter de TV.
-Que legal! Por quê?

-Porque eu odeio ler.

Eu JURO para vocês que esse diálogo é verídico, e aconteceu comigo e mais uma menina na sala antes de começarem as provas pro vestibular da Ufes (a menina é que queria ser a repórter, veja bem), e não me perguntem o ano que “nem as máquinas do tempo voltam tão longe” (LOVATO, Demi, 2013). Esse diálogo é a personificação do conceito que as pessoas têm sobre a TV: a glamourização de um trabalho que na verdade é xexelento, minucioso, afogado em rolos de fita crepe, papel velho amassado no bolso, pó vazando na bolsa e bolsa com fundo preto de ficar no chão.

A expressão que dá título a esse post foi bem utilizada por uma amiga produtora, muito competente por sinal, que inclusive fez uma minissérie irônica e divertida de fotos no instagram denominada “o glamour da produção”. Nas fotos, ela aparecia sem medo sempre ridícula, com uma touca na cabeça, carregando um tripé pesado, suada, cansada... Porque é assim, é chato e cansativo, e só imbecis continuam fazendo isso porque gostam.  Por isso, hoje resolvi escrever sobre a equipe de TV, para quem ainda tem essa forte ideia na cabeça de que as pessoas são lindas e fantásticas, ah, como eu gosto de destruir as concepções alheias positivas. Mas vamos lá, uma equipe de TV é formada por:

O produtor

O produtor é um medroso doido pra aparecer na câmera, mas que não tem colhão de dar a cara à tapa. Achou realmente que é glamouroso ficar no telefone o tempo todo e que a TV era um mundo onde as pessoas em volta fariam o que ele mandasse.

Defesa: Como já estive nessa posição, e de vez em quando ainda produzo algumas coisas, vou defender a espécie: é triste quando a gente enfim descobre que o tal “poder” não passa de trabalho escravo e que o resto do mundo tá cagando pro que você faz, e muito mais, que nem entende como funciona, então você tem que explicar tudo timtim por timtim, e como é chaaaaaaato para caralho fazer essa porra, e a base da cadeia alimentar salarial, só mesmo os fortes permanecem produtores depois de fazerem 30 anos. (E sim, há os produtores que não querem ir para frente da câmera. Esses são os melhores).

O câmera

O câmera tradicionalmente é um mala reclamão. Passa o tempo todo torcendo para chover e a pauta cair. Sempre começa uma pauta com ares de diretor de fotografia da Discovery ou reclama que não dá pra fazer imagem alguma ali. Ele necessariamente vai reclamar também do trabalho do produtor.

O editor

O editor, então, é um  chato de galocha. Ele necessariamente vai reclamar do trabalho do câmera. Você vai ouvir três vezes na vida eles dizendo que chegou com a quantidade certa de imagens, o cérebro deles não permite que eles pronunciem essas palavras com facilidade, então é muito, muito difícil isso acontecer. Ou tem demais e vai dar muito trabalho editar, ou tem de menos, impossível trabalhar desse jeito.  E, independente do resultado,  fazem questão de dizer que sentiram falta DAQUELA imagem, uma coisa absolutamente impossível de ser feita, mas que ele jamais saberá disso porque não levanta a bunda da ilha de edição pra nada e não conhece o mundo real.

O apresentador

Um ego pretensioso, com um custo-benefício nas alturas, porque um macaco consegue falar esse texto e esse mané não, e ainda assim costuma receber mais do que os outros.

Defesa: como eu estou atualmente nessa posição, a defesa vai ser grande e começa com a pergunta: você já tentou fazer isso, seu fd putinha? Então para de achar que é fácil. Segundo, você não tem ideia de como é difícil se ver na TV. O seu ar pretensioso não passa de uma casca dura que você teve que cultivar ao ver que a sua boca é torta, sua sobrancelha é falhada, seu olho esquerdo parece que sofreu um derrame, e ainda por cima de vez em quando desce uma pomba-gira que te faz ficar com uns trejeitos escrotos que você não sabe de onde saiu, ainda mais quando fala o texto com tons de voz que surgem do nada. (Certa vez eu fui falar que uma cahoeira tem 40 metros e do nada saiu a palavra quareeeennnnnta que é piada interna até hoje, e todos os meus amigos filhos da puta ficam buscando no mundo oportunidades de falar esse número só para me sacanear.)

Finalizando, você vira um buda da apresentação quando para de lutar contra isso, porque já entendeu que é um tolo disléxico incapaz de fazer melhor. Com o ego esfacelado, você desiste e na primeira tomada fala “pra mim valeu”, que pelo menos assim o câmera não vai te odiar para sempre por ter que repetir essa porra mil vezes, ele já sabe bem antes de você que não vai ficar melhor.

O diretor executivo

O diretor executivo é um pseudo-zen que lida com pessoas e números. Você acha que essa fórmula dá errado? Dá mesmo! Por isso normalmente eles fazem ioga, ou são vegetarianos, essas merdas que passam a impressão de serem mega calmos. Deve ser para não ter que fazer terapia, ninguém em sã consciência consegue lidar bem com pessoas e números. Ou ele paga de zen pra te mostrar como você é um “desespiritualizado”, e se utiliza disso para negociar seu cachê, quê isso gente, dinheiro é só um detalhe na vida das pessoas, seu consumista de uma figa.

O diretor

O diretor é o cara que delega tanto, mas tanto, que depois tem que viver tentando provar sua real necessidade para o resto do grupo. Ele é importante quando dá uma merda maior entre os membros da equipe, aí seu ego infla num efeito baiacu fantástico e todo mundo em volta fica com cara de sardinha enlatada.

O cara do som

Hein? Quem é esse cara?

Pronto. Se você tiver um espécime de cada, já pode começar a fazer TV. É fácil, lindo e glamouroso. Boa sorte.

domingo, 22 de setembro de 2013

Rock in Tio



“Será que dá pra entrar com fruta na bolsa?”

(Oh, no. Quando você se preocupa com esse tipo de coisa ao ir prum festival de rock, tá na cara que passou da hora de ter feito isso).

“Tem certeza, posso colocar papel alumínio em volta? Não vão pensar que é uma dola de maconha não, né?”

(Ufs).

O fim de semana passado foi assim. Repleto de dúvidas das mais idiotas. Porque antes eu ficava preocupada em amarrar uma camisa xadrez em volta da cintura para não sentir frio. Agora tem que pensar em tudo, é uma operação de guerra! Não pode confiar na comida de lá, com certeza é “comida de menino”, pizza, cachorro quente e hambúrguer. Tem que se hidratar pra não passar mal. Aproveita toma um Engov logo, que amanhã você trabalha e não pode mais se dar ao luxo de fazer isso meio bêbada. Já fez, mais de um milhão de vezes, mas não dá pra fazer mais, porque... ah, porque não vale a pena.

Eu lembro a primeira vez que tive vontade de ir ao Rock in Rio, foi quando ouvi um vinil bicolor que minha irmã tinha ganhado de presente e gostei das músicas. Eu lembro que sabia que essa tal festa era muito especial, e me perguntava porque a gente (no caso, minha família, eu papai, mamãe, irmãos) não tínhamos ido pra lá. Mas a coisa ficou assim, tipo uma nuvem lá atrás. Não lembro que ano foi isso, mas não importa muito. Quem se lembra desse vinil sabe que isso foi em OUTRA ERA. Isso foi ANTES do RiR deixar de existir, para depois ressurgir das cinzas, agora, anteontem.

Semana passada fui ao festival pela primeira vez. Sinto que dessa vez a vida não me deu a oportunidade na hora certa, pra ser bem sincera. Isso era pra ter acontecido há uns dez anos, quando a preocupação era amarrar a camisa xadrez na cintura. Eu realmente queria ter postado uma foto no instagram fazendo beicinho e o símbolo do capeta na mão, mas não rolou, gente. Não que tenha sido ruim, mas acho que paguei caro demais pro show de rock celta maluco que, aliás, foi o que mais gostei, de tudo. Daí você fica pensando na infraestrutura... e elogia que o banheiro tava bem limpinho. Tem até uma certa vontade de descer na tirolesa, mas imagina o trampo para chegar até lá. Come a fruta que carregou na bolsa porque tá começando a pesar. E lembra de beber uma água de vez em quando.

O festival de fogos foi lindo! Depois começou Jota Quest e eu fui pegar uma cerveja. Fui cativada pelo rock celta e lá fiquei até começar a Alicia Keys. O show da Alicia Keys foi a coisa mais chata que me lembro de ter presenciado nos últimos tempos, e com certeza a coisa mais terrivelmente chata que já paguei para fazer. O festival virou um chill out gigantesco, todas se estapeia pra conseguir um metro quadrado no chão (pode ser o de cimento mesmo, o espaço no gramado acabou) para deitar e dormir. DORMIR! Não tipo bater um papo e esticar as pernas. Tipo dormir de conchinha e babar no braço do namorado. Assisti ao show todo, tentando acreditar que ia melhorar. Uma música lá melhorou mesmo, foi quando a Maria Gadú subiu ao palco. “É impressão minha ou a Gadú tá DANDO UMA FORÇA para Alicia? É, isso mesmo”. Que coisa.
 
 
Não aguentei. Fui embora antes mesmo de ver Justin Timberlake, o tal show mega blaster da noite. Foi até gostosinho, não peguei fila, vim sentadinha no ônibus de linha, ainda bem que não bebi demais, o motorista tava cascapeta, com certeza eu vomitaria se estivesse bêbada. E a gente chega mais cedo, dorme gostosinho na cama, minhas pernas estão me matando, a coluna então, tô sentindo cada desvio da lordose E da escoliose nesse momento. Se tivesse um Starbucks lá, eu até ficava mais. É isso, faltou um Starbucks. Porque a juventude toma ácido, e a gente fica aqui, órfão de um droga que o corpo ainda processa. Não é que eles sejam mais animados, é ácido, tô te falando.

***

Depois de uma semana, descobri, vendo televisão, que não cheguei sequer a conhecer o festival todo.
-Caralho, esse palco aí eu nem vi. PQP! Não acredito que eu não vi um palco gigantesco desse!

-Jura que você não viu? Tava do lado da montanha russa!

-Tinha uma MONTANHA RUSSA lá dentro????

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Atorvastatina Cálcica





Quero meu torresmo. Sou behaviorista, isso não é justo, ME DÁ MEU TORRESMO!
Esse grito tá preso na minha garganta desde a semana passada, quando eu voltei à endocrinologista. Então essa semana vou lhes contar mais uma aventura de uma pessoa com mais de trinta anos, achando esse fato limítrofe da vida uma coisa surreal.
Estava eu linda loira e japonesa, porém não magra, no inferno astral desse ano, portanto pré aniversário de 31 anos, portanto lá pelos idos de abril (calma, vou resumir essa história), e aí que eu desmaiei e aí que eu comecei a investigar porque isso aconteceu. Fui a alguns médicos, entre eles tinha que figurar na minha uma lista uma famigerada endocrinologista, para checar taxas, essas coisas que pessoas velhas fazem só para ficar comparando com os dos outros depois.

Primeira consulta

-Olá. O que te traz aqui?
-Um desmaio.
-Como é a sua rotina?
-Inexistente.
-De alimentação!
-Ah, tá. Tem dois tipos, o pé na jaca e o rehab.
-Como é o rehab?
-Suco verde pela manhã. Pão light com troço light dentro. Almoço é arroz integral, um grão, carne branca e vegetais. À noite, isso sem os carboidratos. Lanchinhos saudáveis. Comer de três em três horas. Tudo na quantidade certa.
-E o pé na jaca?
-Tudo igual, só que não.
-Vamos fazer uns exames para ver como estão as suas taxas. Volte aqui com os exames prontos.

Um mês depois, segunda consulta

-Deixe-me ver essas taxas. Meu Deus! Seu colesterol tá em 238! Triglicerídeos também tá alto, lipídeos também...
-Mas esse exame aí não tá falando a verdade. Eu estava em Vitória na semana anterior ao exame, e lá minha dieta é pé na jaca.
-Mas essa jaca é enorme, hein? Acho que você anda sacaneando muito o seu corpo.

*Status: sem vergonha

-O que você faz quando enfia o pé na jaca?
-O que todo mundo faz. Como muito. Muita carne vermelha. Queijo amarelo. Pão branco. Bebo litros de cerveja. E de vinho.
- E esse peso, menina? Você tá muito nova pra estar com esse peso todo. Sobe na balança!

**Status: gorda sem vergonha

-Vamos perder uns quilinhos? Quantos quilos você quer perder?
-Quanto quilos eu QUERO perder? Que pergunta é essa? Mil.
-Quatro quilos. Vou te mandar pra nutricionista.
-Tá bom. Você tem alguma pra me indicar?
-Você não tá entendendo. Tem uma nutricionista aqui na sala ao lado, vou te mandar pra lá agora.

(nutricionista): -Toma, segue essa receita aí por um mês. Depois você vai refazer os exames e mostrar novamente para Dra. Endócrino. E pode parar de beber tanto!

***Status: gorda alcoólatra sem vergonha

Aí se segue o que todo mundo já conhece: um mês de rehab, comendo alface nos fins de semana pra poder beber bastante. E depois de um funcking month sem chocolate com flor de sal, sem carne vermelha alavontê, sem garrafinha de vinho no final do dia, sem sorvete de chocolate com amêndoas, sem costelinha de porco com molho barbecue, depois desse jejum espiritual!.. eu refiz os exames. E foi aí que eu pensei, vou mostrar essa caralha para Dra. Endócrino e pronto, terei minha recompensa! Hoje tem torresmo com cerveja, negada!

Mas a vida. A Vida. É uma caxinha de surpresas.

Terceira consulta

-Como você se comportou?
-Muito bem.
-Vamos ver se você realmente se comportou muito bem. (Tipo professora de primário). Sobe na balança! (Tipo inspetora do segundo grau).
-Muito bem! Tá magrinha! Três quilos e meio? Se comportou muito bem mesmo! (Tipo professora de primário).

*Status: magrinha

-Vamos ver suas taxas... É. Lipídeos caiu muito. Triglicerídos também. Mas seu colesterol... aumentou.

(AUMENTOU, gente. Não existe amor no mundo. Eu me comportei bem, apertei a alavanca, porque o mundo não me retribui com o meu açuquinha? Por que eu? Por quê?????)

**Status: magrinha velha querendo dar uma voadora em alguém

-Vou ter que receitar remédio.
-Não rola uma farinha de berinjela?

(Na minha frente, um sorriso maroto de quem ouve uma piada mas não pode gargalhar)

-Não. Mesmo com a dieta seu colesterol AUMENTOU! Vamos fazer o seguinte: se diminuir bem com o remédio no primeiro mês, você controla com a farinha a partir daí. E agora? Você quer perder mais quantos quilos?
-Mil.
-Vamos continuar com a mesma dieta. Assim você volta mês que vem, com os exames refeitos, magrinha e linda!

***Status: magrinha velha potencialmente linda querendo dar uma voadora em alguém em especial

Aqui estou eu. Gastando a energia à vontade nesse teclado porque a sopa dessa noite é de músculo. Tem coisa mais cafona do que tomar remédio de colesterol, gente? Não tem não. 


Epílogo

Não sei ainda porque eu desmaiei, mas já decidi que vou parar de investigar.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O direito de permanecer calado

 
Estou chegando a uma conclusão muito triste. Sempre estranhei o fato de tantos profissionais gastarem tanto tempo de suas vidas com o self promotion – essa é um expressão engraçada para designar isso mesmo que você deve estar imaginando, a auto promoção. Pensei que fosse algo pertinente à minha profissão, tão cheia de egos inflados e machucados, haja vista a exposição que sofremos cotidianamente, não é todo profissional que tem o seu trabalho sendo avaliado por um zilhão de pessoas todos os dias. Mas enfim, o meu desabafo de hoje é que não aguento mais as redes sociais entupidas de gente alardeando o próprio sucesso. Posso ser taxada de invejosa, amarga, whathever, mas definitivamente não é disso que se trata. É um sentimento ainda pior, é entender que as pessoas não conseguem – e às vezes não podem - mais ficar caladas.

Sempre lembro de uma lição básica que permeava a minha casa desde que me entendo por gente. Meus pais passaram muitos e muitos anos tentando mostrar pra mim e meus irmãos como a humildade pode ser gratificante. Claro, lá pelas tantas, meu pai já machucadíssimo de tanto trabalhar e levar as bordoadas que o “sistema hierárquico” (para não falar das pessoas) é capaz de lhe aplicar uma vida inteira, já me dizia, com toda a ironia do mundo, porque eu sei que ele de fato não acreditava nisso, enfim, dizia ele, “minha filha, de vez em quando a gente tem que fazer um self promotion. Esquece tudo o que eu te falei até hoje. No mundo é mais importante falar bem alto que fez do que de fato fazer”. Bela tentativa, mas óbvio que não deu certo, e continuo achando muito mais bonita uma pessoa poderosa e sexy do que carente e vulgar, e as duas podem estar se apresentando com a mesma roupa...

Há algumas semanas fui convidada por uma amiga a acompanhar um ciclo de palestras cabeçudíssimo. O tema é “o silêncio e a prosa do mundo”. Um monte de sociólogos, filósofos e afins estão perdendo seus tempos falando sobre o silêncio o que, em si, já é bastante paradoxal. E um monte de gente com tempo sobrando está destinando algumas horas semanais para ouvi-los, o que é o meu caso. Mas as palestras têm me feito pensar bastante sobre o nosso direito divino de permanecermos calados, que não está mais sendo protegido nos nossos dias. O silêncio, hoje, geralmente é mais carregado de significados que a própria palavra. Quer um exemplo prático? O meu. Eu era uma pessoa pública na minha terra natal. É normal que algumas pessoas me perguntem o que estou fazendo, já que “sumi da TV”. Tenho duas opções: alardear a todo instante o meu “sucesso” nas redes sociais, ou ficar em silêncio, e esta opção provavelmente significará, para muita gente, o meu fracasso.

Isso também acontece atualmente na esfera intelectual. Conversando com um amigo meu, professor, ele ratificou que não tem mais o direito de não ter opinião sobre tudo. As pessoas cobram que ele se posicione acerca de absolutamente tudo o que acontece. “Às vezes é mais fácil manter-se no âmbito das fotos de praia e receitas caseiras”, ele desabafou. “Assim que você se posiciona de determinada forma sobre algum acontecimento, todos esperam que você haja de forma parecida em outros”. Lindamente ele me falou sobre os papeis que resolvemos – ou temos que - desempenhar nas redes, e caí em mim, vivemos, senhores, no tempo da ultra-etiqueta.

Instagram, facebook, fotos de como sou linda, fotos de como minha vida é foda... Claro que se temos amigos, família, ainda mais morando longe, é interessante postarmos um pouquinho da nossa vida para eles acompanharem, e que sejam as partes boas, não acho que seria de bom tom a foto de uma bunda com a legenda “minha vida é cuzona”. E se temos um público, também considero importante alimentar um pouco da sua curiosidade, devolvendo o voto de confiança e a admiração pelo nosso trabalho. Mas tudo tem limite, gente. E ter que gritar aos quatro cantos o quanto se é especial não é mais alardear o sucesso, mas tentar angariá-lo nem que seja pelo grito.
Ainda lembro quando havia recém chegado aqui no Rio, um amigo de Vitória me disse uma frase que não me esqueci, “faça mais, fale menos”. Achei uma boa forma de reajustar os pensamentos na minha cabeça, já que me dei o direito de recomeçar. Não me entendam mal, sou meio viciadinha em instagram e facebook, acontece com todo mundo, e se estou reclamando do conteúdo que está lá é porque eu consumo. Mas estou achando cada vez mais cafona a forma como é utilizado tudo isso. Vai lá, pode me chamar de velha, mas o fato é que às vezes minha vida é tão cuzona que não tenho energia pra tentar provar o contrário em fotos. E às vezes ela está tão extraordinariamente maravilhosa que eu não lembro de compartilhar.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Na riqueza e na pobreza, a escravidão

 

Essa semana me acometeu uma dúvida atroz. Mandaram-me uma mensagem dizendo que a Ancine abriu concurso. Salário de cerca de dez mil reais. Quinze vagas só para a minha área. Me deu um nó.

Será que não estava na hora de buscar a minha estabilidade? Fiz uma breve pesquisa, havia cursinhos preparatórios começando agora, o investimento para fazer a prova sairia por uns mil reais, não é tão caro para o possível resultado, mas bem salgadinho para quem ainda não tem lá muitas moedas sobrando no fim do mês. Para completar a missão de me confundir completamente, fiquei imaginando o que daria para fazer com esse dinheiro. Engravidar? Mudar de apartamento para alguma coisa mais perto da área “nobre” do Rio? Fazer os cursos que tanto quero fazer aqui, de roteiro ou direção de cinema? E para quê, se o cargo é de quarenta horas semanais, exatamente o tempo que leva para pegar toda a sua vida e resumi-la a um domingo, que sobra pra tentar recobrar as energias na cama? Ainda assim, tentador, para a taurina que sou, na verdade é uma proposta de lamber os beiços. Mas lá no íntimo alguma coisa me travava de embarcar nessa. Talvez o medo profundo de acabar passando no raio do concurso, talvez o pavor de não passar.

Não me perguntem atrás do quê estou correndo atrás nesse momento. Estabilidade é bom e todo mundo gosta, ainda mais com um salário gordo que te permite viajar, conhecer outros países, aproveitar a vida. Mas eu também sei de algumas coisas simples que fazem extremamente feliz, como entrevistar pessoas interessantes, conhecer lugares novos, escrever histórias, me aproximar de gente maluca. E até que falando assim, eu já estou conseguindo tudo isso, só quero mais, e num escritório é muito provável que não aconteça nada dessas coisas em profusão. Mas quem sabe nas férias?...

Resolvi que a melhor forma de chegar a uma conclusão era exatamente conversando com pessoas que já alcançaram a tão querida estabilidade. Tenho alguns amigos, assim, digamos que fantásticos. Extremamente inteligentes, ocupam diversos cargos em grandes empresas ou instituições, todos efetivados em cargos públicos. E todos me dão uma impressão de levarem uma vida feliz, mas cá com os meus botões eu gostaria que eles tivessem mais tempo para explorar seus lados criativos, que são tão impressionantes quanto a estabilidade que conseguiram galgar. A dúvida, portanto, permanecia.

“Faz! Tenta sim”, foi o que todos responderam de cara. Aí sempre se seguia a minha explicação, uma verdadeira palestra que todos ouviram com a maior atenção, na qual eu defendia de onde minha dúvida saía: o que esses dez mil representavam não era a minha estabilidade, mas sim a compra da minha criatividade. “Tenta, se você passar, aí você vê”, era a segunda resposta de todos eles. Mas ninguém é tão ingênuo de pensar que se eu passar num troço desses vou ter autocontrole o bastante para fugir da raia blasée, “não, obrigada, prefiro continuar tentando ganhar dinheiro com minha criatividade”. Rá.

Essa loucura dos concursos públicos no Brasil fez, de fato, um monte de gente ficar doida. E o corporativismo traz em si um sistema hierárquico fajuto que me parece começar a ruir. Vou explicar: um desses amigos fantásticos me mandou um texto muito interessante que trazia uma frase que me marcou demais. Ela dizia mais ou menos isso: “Trabalhe corretamente e com afinco por oito horas todo santo dia que, se você merecer e der sorte, virará patrão e trabalhará doze horas por dia”. Lembrei de cara de um outro amigo, também concursado, que já recebeu várias propostas de promoção em seu emprego. Recusou todas. Diz ele que o dinheiro que ganha já está bom para a vida que leva, e o que viria a mais com a promoção não paga a qualidade de vida que ele sabe que perderia com o acúmulo de responsabilidades. (Esse amigo, em outra ocasião, já esteve internado num hospício, e hoje tenho certeza absoluta que é porque o mundo inteiro é doido e ele é lúcido demais).

Se você pensa que esse é um caso pontual, preste atenção: outra amiga já teve um belo salário sendo jornalista (!!!!!!) e pediu pelamordedeus por uma “despromoção” (acho que o termo foi cunhado por ela, porque antes a prática não existia no mundo). O chefe se recusou, e ela pediu demissão pouco tempo depois. Hoje ela é funcionária pública, portanto já passou também em um concurso, recebe a metade do salário grande que recebia antes, mas trabalha em sua área, cinco horas por dia, com sábado, domingo, feriado.

Voltando ao primeiro amigo, o que me passou o texto. Ele mesmo, esses dias, estava também numa dificuldade tremenda de dizer não ao chefe, que quer promovê-lo a todo custo, e isso há anos, e olha que o cargo que ele ocupa atualmente não é dos menores. Dito isso, ao fim dessa semana ele me ligou, comunicando que chegara a uma decisão muito importante de sua vida. “Vou falar com meu chefe. Vai ser um inferno, mas terei que encará-lo e dizer que não quero a promoção. Está na hora de engordar minha vida”, disse-me.

No fim das conversas, todos chegaram à conclusão de que eu não deveria sequer tentar o tal concurso. “Não quero te ver despachando processo burocrático, quero te ver na TV, ou escrevendo, ou fazendo alguma coisa que sei que vai importar”. “Você está chegando no tempo normal das melhores coisas começarem a acontecer, não se precipite”. “Você é boa demais e ainda vai descobrir isso, e vai ganhar o salário que quiser fazendo o que faz”. Frases elogiosas demais, que a amizade faz brilhar a percepção, eu sei, mas para mim as palavras podem virar escapulários, guardamos na memória para recorrer a elas, como orações, bençãos, mantras se necessário.

A conclusão maior – e mais triste – dessa semana, para mim, saiu de um telefonema com o primeiro amigo, não o louco do hospício, o louco que vai recusar a promoção desejada pelo mundo inteiro, graças a Deus, que ele está começando a colocar os pés no chão, e no chão que ele quer, o que é mais importante, e conversando a gente pensou junto, a falta de dinheiro escraviza, mas a abundância dele, também.  A minha segunda adolescência é minha grande chance de fazer de novo, e que seja assim. Nem que eu tenha que voltar a tomar xiboquinha. Não, prefiro ficar sóbria a tomar xiboquinha. Mas se precisar, talvez eu tente umas caipirinhas, em algum lugar novo, com essa gente maluca, bacana e despromovida.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Shoppings e guetos



Sabia? Dá pra descobrir muito sobre um local indo ao shopping de lá. Não é tipo “um shopping do Rio” que estou dizendo. É mais “um shopping da Zona Norte”, ou “um shopping da Barra”. Nunca fui de fazer turismo em shopping, mas morando aqui já fui em alguns e posso dizer que eu estava enganada, eles não são todos iguais.

Vou começar pelo Rio sul, porque se tem algum shopping que é “um shopping do Rio”, é o Rio Sul. Ali no hemisfério Botafogo-Copacabana, ele é um típico centro blaseé de turista que precisa resolver alguma coisa ou passar o tempo. É igual a qualquer outro do mundo, digo, dos mais tradicionais, e a única coisa que muda é uma pintura muito, muito feia na fachada desse shopping em especial que te lembra “ah, é o Rio Sul, tem a pintura feia”.

Já fui também no shopping Tijuca, obviamente, já que é o mais perto da minha casa. Ali sim tem a cara da Tijuca! Aquele montaréu de gente entupindo a praça de alimentação o tempo todo. O cinema, então, nem se fala... Todo tijucano adora um shopping, deve ser o trauma da praia ser longe, mas ainda ter um dinheirinho no bolso pra gastar com lazer. Dá nisso... Os cinemas desse shopping são os mais frequentados DO BRASEEL, minha gente. Cheio de gente que se arruma pra ir em shopping, cheio de fila porque não compra pela internet, cheio de filme de Homem Aranha. Insuportável.

Mais pro lado de lá tem o Iguatemi, que é a alegria de quem mora em Vila Isabel. Mas o cinema não é tão bom assim, já me avisaram. Não é tão 3D, e já que pra furunfar no cinemão hollywoodiano, que tenha uma boa pipoca com gosto de glutamato monossódico e um três dezão. É um pouquinho mais classecê, mas ainda não fui em um shopping beeeeeemmmm classecê pra dizer, deve ter algum voltado mais especificamente ainda para esse público, esse povo tipo eu e você.

Mas se você quer fazer uma viagem antropológica pelo mundo da riqueza, aaaaaaaaaaaaaahhhhh, se prepara que eu guardei o melhor pro final. Dizem que existe um shopping muito, muito rico aqui no Rio, é o Fashion Mall, ali em São Conrado. Nunca fui, mas entra no site que você vai entender, tem hashtags #must have, sessão de instagram do shopping e o link “praça de alimentação” se transforma em “gastronomia”. E tem outro que é mais rico: é o Village Mall, na Barra da Tijuca.

Obviamente que fui lá no Village Mall para outro assunto, qual seja, assistir a uma peça de teatro, e me deparei com o doce mundo da riqueza. É legal, gente. Sinto muitíssimo, mas é legal. Aquele chão de quadrados gigantes de porcelanato brilhante. Aquele pé direito altíssimo com obras de arte que te fazem olhar o céu. Aquele céu, que aparece porque o teto é de vidro. Aquele chão de madeira da praça de... gastronomia, com aqueles restaurantes que combinam com aquelas lojas, Prada, Armani, Gucci, tudo um do ladim da outra, igualzinho no Saara, só que não. O silêncio que se escuta lá...  é tão gostoso! Porque pobre gosta de gritar tanto, gente? Rico fala baixinho, a música é tipo... ambiente, aposto que foram lá pra gravar os passarinhos que cantam no metrô. Aqui na Tijuca a gente só ouve uma massa grossa de mil vozes, criança chorando, bandejão de comida caindo no chão e arara, não é passarinho, piu piu piu, não, é AAAaaa AAAAaaa das araras da floresta da Tijuca, achei tão bonitinho e selvagem na primeira semana, agora podem matar essas malditas aves do inferno, pior que elas só as malditíssimas calopsitas piando a porra do hino do Flamengo sem parar.

Não.... vamos voltar pro shopping silencioso! Aí que lá você tem que ir no banheiro. Sabe? Não precisa tocar em nada, que quem precisa tocar em tudo é pobre. Você chega lá e a descarga é por sensor. Tem cheirinho de banheiro limpinho. E tem as moças dos serviços gerais, hahaha, essa é a melhor, gente, vocês TÊM QUE IR LÁ só pra isso, elas vestem uniforme de empregada da novela das oito, tipo Nina, juro pra vocês.

Quero ter mais algum motivo pra ir pra lá, que é tudo tão maravilhoso, mas é na Barra.

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Minha estação preferida




Começa assim: a gente é meio que obrigado a frequentar o lugar e acaba se acostumando. Como em Vitória era a linha 124 – Estrelinha, que me levava pra tudo quanto é lugar, morando em Jardim da Penha como morei. Dava um calorzinho gostoso no coração quando eu via ele aparecendo lá no final da rua, e vinha à minha cabeça: essa é minha linha de ônibus preferida.

Coisa assim só tem quem vive. Quem está lá por um tempo, e acaba criando laços com coisas inanimadas que se movem, coisas vivas da cidade. E agora já posso dizer que tenho uma estação preferida aqui no Rio. Já decidi. Sou apaixonada pela Cinelândia.

Foi amor à primeira vista, na verdade. Quando vi a águia exuberante do Teatro Municipal, abrindo as asas por sobre a praça de prédios antigos, me senti em casa instantaneamente. Quis a cidade que o trabalho surgisse pros lados de lá também, e que os ônibus não fossem tão eficientes quanto subir as escadas do metrô e dar de cara com aquela praça. E tudo fica mais bonito e apaixonante no inverno, então, senhores, para quem gosta do Rio minha sugestão é que venha pelo menos uma vez nessa época do ano, e que ganhe pelo menos uma tarde na Cinelândia, e agora eu vou explicar mais  por quê.

A Cinelândia, estou dizendo para vocês, é mágica. Ela tem histórias, edifícios gigantes e fantasmas, com certeza muitos fantasmas bem vestidos ficam por lá, no alto das torres engenhosamente colocadas em cima dos prédios velhos. Se eu fosse você, ia fazer uma visitinha no Teatro Municipal, que nem é preciso ir a um espetáculo propriamente dito, lá tem visitas guiadas para se conhecer o prédio, e é baratinho, e é assim também em vários lugares do redor, como a Biblioteca Nacional, por exemplo. E lá, se eu fosse você, também inventava de fazer uma pesquisa qualquer, mas procure na sessão de edições raras, só para ter a sensação de ficar sentado numa mobília estudantil pesada de madeira esperando seu livro velho velho velho mofado chegar.

Quando a pesquisa terminar você estará com fome, porque você provavelmente vai ficar pelo menos um par de horas com os olhos grudados no livro velho sem perceber, que lá os relógios andam conforme o tempo de quem escreveu viveu, e ficar duas horas num livro é normal para um dia que não tem tanta artimanha para comer o nosso tempo como hoje. Então você pode ir para o prédio da Justiça Federal, tudo aqui no Rio vira centro cultural e a Justiça não ia ficar de fora, com mais um prédio lindo e exposições fantásticas. E a fome você guarda para o café que tem no próprio prédio, sugiro o pão delícia, que é um pãozinho tipo de pão de batata com recheio de requeijão, com um capuccino, que combina bem, sim, com os dias frios daqui.

Requentados, podemos seguir caminho antes que a luz diminua demais, e agora minha sugestão é que você caminhe um pouco, até o aterro, para digerir o cérebro. É que no inverno do Rio as árvores do aterro ficam espetaculosas, todas se entregando à explosão de uma cidade que não vê, mas percebe, de canto de olho, uma presença bem vinda, elas tem que gritar de cor para que alguém olhe em sua direção. Mas se você vê, são tão bonitas que hipnotizam... e no trevo exatamente na frente do aeroporto, reparem, tem uma árvore com um caule de diâmetro tão  largo que parece uma cobra que comeu demais, e ela está sempre lá, digerindo toda a seiva do mundo, é a Árvore Fofa, que me dá uma imensa alegria sempre que se mostra, não ache que sou louca que te dou certeza, se você vir a Fofa também vai pensar “Árvore, me dá um abraço”.
 
Se ainda tem massa cerebral e pernas, aproveita que tá do lado do MAM. Se cansou desse lugar, volta então pra praça, que tem o Museu Nacional de Belas Artes, a Livraria Cultura e o Teatro Dulcina, este com cadeiras de madeira, uma sala pequena, preços acessíveis para peças fantásticas. Mas se seu lance for cinema, ali está o Odeon, que é pecado não entrar, vira essa boca pra lá. E depois desse dia, pode sentar num dos bares da praça, que ficam cheios de gente querendo viver o lugar, o mais tradicional é o Amarelinho, se me permite, peça o chopp e uma porção de codorna, e a pequena ave fecha um dia que você não vai esquecer, garanto, não vai não, que os fantasmas te perseguem depois ainda que você entra de volta pra terra, no buraco que te leva de volta para a a nossa década.