terça-feira, 11 de março de 2014

Notas de uma velha babona


Sou tia. Uma tia velha e babona demais pra estar no mundo. Enquanto todos os meus amigos já têm sobrinhos completando lá seus dez anos, eu tô agora naquela fase ridícula de ficar estudando, de longe, as fotos, pra saber se a sobrancelha da pequenina parece com a minha. E posso te garantir uma coisa: não pa re ce por ra ne nhu ma.

O rosto é todo da mãe, mas o cabelinho grosso e preto demais entrega que essa vai ser uma devoradorazinha de tahine, é só esperar. Puxou ao pai também o gosto por comer e dormir, coisa que faz, basicamente, o dia inteiro. Tudo nessa vida de bebês é feito de clichês; eu a acho linda, apesar de ser só um bebezinho, e fico me perguntando se a bichinha realmente é bonitinha ou se algum traço genético me faz achar um joelhinho a coisa mais linda do mundo.

E aí vem os diálogos bizarros.

“Como está a vida de papai? –Não sei, ainda não tive a oportunidade de pegar minha filha no colo”.  

“Como é esperta! -Como assim? Porque está viva? Se isso é esperteza, eu sou o Einstein”.

“Você CHOROU, pai? Nunca te vi chorar! –“Chorei não. Só... me emocionei. É uma emoção muito grande”.

Chata. Agora que não estava mais sofrendo tanto tanto de saudade de tudo anterior, agora que meu coraçãozinho tinha enfim ganhado um relax da contração perdida de tantos rostos desaparecidos, agora volta essa angústia pra sempre de não estar lá. O que é quase um remédio, porque fico imaginando que ia agarrar a menina e não largar mais.

“Você foi hoje ver sua neta? –Não. Estou respeitando, é o primeiro dia deles em casa. Vou amanhã”. (tipo muito esforço)

Eu lembro como é essa sensação. Foi assim quando o meu gato foi lá pra casa. Eu trabalhava rapidinho pra voltar e ficar com ele. Imagina um ser humano? Um ser humaninho que abre os olhos, come, dorme, tão esperto esse serzinho, ai meu Deus, eu não sairia de perto. É bom mesmo esse ser humano ter alguns dias a mais na Terra quando eu for encontrar com ele, pro bem dela, é preciso que esse ossos estejam mais fortes para aguentar o tranco.

Os hormônios das mulheres são realmente coisas catastróficas. Estou chegando à conclusão que, depois que essa merda toda é jogada no ventilador, lá pros quinze anos de idade, depois disso a gente não tem mais personalidade, a gente tem hormônio. O que estiver dominando é o que vai ditar o que você é hoje.

É tão assim que meu amigo de trabalho, com quem eu trabalhava todo santo dia colada, sabia mais do que eu das minhas fases ovulares. Um dia ele disse que eu tenho um ovário demoníaco (o que me faz gritar) e um bom (o que me faz chorar copiosamente por qualquer coisa, ou seja, bom pra ele, que não tinha que aguentar minhas ebulições e ainda fingir que não sabia que se tratava de uma questão ovariana e não de caráter mesmo).

Isso é só o básico de uma vez por mês. Porque, minha filha, depois dos trinta anos a gente fica re-tar-da-da. Digo, no sentido do tema de hoje, quando vemos uma criança a gente para tudo, para o que está fazendo e faz aquela cara de cachorro pro ser.

Eu estou assim há algum tempo e não desperdiço nenhuma oportunidade de catar crianças alheias caso os pais consintam. Já passei vergonha, é bem verdade. Amigos já me apelidaram carinhosamente de “Nazaré”. Em outra ocasião peguei uma criança emprestada numa festa e não devolvi mais enquanto o pai não veio pedir. E não é que o fdp veio mesmo pedir? “Posso ficar um pouquinho com ela agora? Estou com saudade”, foi o que ele me disse. “Tudo bem, fique um pouquinho e depois devolva”, foi o que respondi.

Ontem recebi uma foto com a minha sobrinha vestida com a roupinha de personagem do Super Mário que comprei pra ela assim que fiquei sabendo da gravidez. Tem noção da minha reação quando vi a foto? AAAAAAAHHHHH! Re-tar-da-da. E as fotos que recebo dos avôs com ela? Uma criança toda empetecada no colo de um adulto com um ar esmorecido, uma cara de quem acabou de tomar Valium. É assim mesmo?

Fora a quantidade exorbitante de roupas, acessórios, sapatinhos que andam fazendo para a pobre da menina. Penso em quantas vezes os pais têm que trocar para dar tempo de ela usar tudo nessa vida. Deve ser cansativo... Bota roupa, tira foto, envia para quem deu a roupa, muda de roupa, tira foto, ad infinitum... ai, que legal!


Ser tia é achar que é mãe sem ter que passar o café.



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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Felicidade?!?@


                        foto: Caixa d'água, ES, 2012

Alguém aí tem visto a horrorosa novela das seis, se não me engano é a das seis, aquele puxadinho de Malhação intitulado “Além do Horizonte”? Não, né? Pois é. A trama trata prometia tratar, lá no início dos tempos, lá onde o horizonte fez a curva, sobre o tema “a busca da felicidade”. Até aí, tenho que te dizer que eu ia deixar me envolver, por um capítulo ou dois, pra ver se me embarcava na deriva de uma ficção que traz inclusive uma sociedade alternativa para a busca da tal felicidade, com direito a muitos vilões que sacaneiam as pessoas transformando-as em seres passivos e complacentes, hahahahhahaha, com ajuda de uma máquina poderosa, heheheh, um desbarato impossível de ser reproduzido aqui, assim, rapidinho, então nem vou tentar, até porque eu nem vejo, só ouço os diálogos, mal e porcamente, pro meu desprazer é a hora que estou na cozinha, onde só pega Globo.

Enfim! Alguém já me disse que dou voltas demais. A felicidade. Parece que o tema agora está na moda. Sabem, um professor muito bacana me ensinou, nos primórdios dos meus 15 ou 16 anos, quando eu fazia um workshop de roteiro pra cinema (sim, eu já era retardada) que existem pouquíssimos temas nos quais os autores deviam se engalfinhar para atingir a fama, e se esses fossem esprimidos, dariam num só: o amor. Gostaria de encontrar esse sujeito agora pra dizer pra ele que, nesse ínterim estranho de vida que estamos, parece que o mundo está cagando pro amor. Foda-se o amor. Agora o esquema é a felicidade! “Beijo na boca é coisa do passado; a onda agora é, é ser auto-suficiente”, ou “não procure a metade da laranja, seja você a laranja inteira”, ou “o homem mais feliz do mundo encontrou a felicidade dentro de si”, alguma frase de caminhão dessa você já leu, então captou a mensagem que o mundo quer cagar agora.

Eu concordo, tá gente? Concordo com isso. Mas tá sendo engraçado demais ver a contracorrente da geração Y, aliás, a contracorrente DA CORRENTE que prega que existe uma geração Y, e que somos nós, seres que não sabem lutar pela própria felicidade, que acha que ela deve cair do céu porque nós merecemos, porque somos bons, asseados e merecedores. Eu ainda não cheguei a uma conclusão sobre isso, de geração Y, e acho mesmo que estou tentando relacionar coisas sem sentido algum, ou minha incapacidade está em exprimir melhor a relação que vejo em todos esses discursos, e perdão por isso, MAS... o fato é que já leio bastante gente reclamando como eu, no post ainda mais lido desse blog, que esbravejar felicidade em facebook é um saco. Talvez a relação seja só esse excesso de palavras sobre o mesmo tema. Que antes era o amor.

Aí chegaram dois textos de blogs distintos para mim essa semana. Um de uma moça que se despede do Rio, outro de um casal que se despediu do Brasil, e os dois meio que embarcam nessa onda de dizer que estão, em maior ou menor grau, “em busca da felicidade”.  O primeiro é da jornalista Alexandra Lucas Coelho, disponível aqui: http://oglobo.globo.com/rio/alexandra-lucas-coelho-a-hora-da-despedida-11668912 .

Um texto forte, poético, que eu terminei de ler pensando WTF???? Ela gosta ou não gosta dessa merda, afinal de contas? Porque sinceramente, a moça deu uma de forte mas a minha vontade é fazer uns cafunés nela e falar “calma neguinha, faremos uma vaquinha pra você pagar seu aluguel”...

Tá, concordo com ela que a questão a ser colocada é ótima. Você se esgoelar para conseguir o dinheiro para pagar o aluguel é uma sensação horrorosa com a qual estão estou tão bem familiarizada que já nem faço piada mais. Mas se alguém perguntar se quero sair daqui eu não tenho dúvida nem por um segundo. É NÃO, em caixa alta, mesmo que essa resposta venha com um bom bocado de esperança da bolha imobiliária desinchar depois dessa caralha de olimpíada. E por quê? Porque acho que a cidade se paga em coisas gratuitas para se divertir, por exemplo. Porque acho que as possibilidades de fazer dinheiro são maiores. Porque ainda não gastei vida aqui o suficiente. Mas entendo se você não quiser ficar mais. Só não sofra tanto para tentar se convencer que é ótimo deixar o barco. Seja homem, mulher!

Tem uma coisa muito chata que vem com quem muda de cidade. Acontece com todo mundo. A pessoa fica fascinada com o novo lugar e fica jorrando isso aos quatro ventos, como tal lugar é maravilhoso, como tudo é mais legal, e também – por que não – há espaço sempre para falar mal da antiga cidade, tadinha, te abrigou tanto tempo, você se divertiu tanto nela, e agora ela é uma merda?! Bom, eu tive essa fase. Ficava tentando esconder, sem conseguir muitas vezes, porque sabia, lá no fundo, o quanto era ridículo. Tentei carregar meus amigos para cá, arranjei propostas de emprego para eles, fiquei horrorizada quando negaram, não entendia a atrocidade de tal decisão. Hoje, percebo claramente o que era isso: a parte mais sofrida da MINHA escolha. A saudade, que está levemente retratada no último texto do outro blog de que lhes falei, o www.gluckproject.com.br. O site, também de jornalistas, fala sobre a busca da felicidade de uma forma mais irônica, e eu me identifico bem com eles, inclusive porque são como porcos a escrever, sem se preocupar com a lavagem no ventilador, por aí.  

Vamos aos fatos, então. Pelo menos dois amigos meus deixarão de viver no Rio este ano. Tá achando pouco? Quantos amigos você acha que eu tenho aqui? Amigos de verdade, que eu posso ligar até encher o saco, pra tomar uma cerveja na quarta-feira? Não são muitos, nem aqui nem no mundo... E quer saber? Dei força para os dois. Cada um sabe onde a sua felicidade está. Qualidade de vida é uma coisa que se compra, sim, e aqui tá caro demais, eu sei. Sentirei saudade, como quem, de dieta, sabe que para sempre não pode comer chocolate, só muito de vez em quando, só para te lembrar do quanto você é infeliz por ser gorda. Isso pode ser uma abstinência tão grande no primeiro ano que pensei que fosse depressivar, só de sentir saudade, e ninguém fala disso, não é mesmo? Claro, depois passa. A ponto da gente conseguir dar força pros amigos que querem mudar daqui.


Credo, que texto triste, sem cara de Facebook... chega. Acho que vou começar a falar de amor.    


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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Dia de museu com Maul



Algumas pessoas muito, muito próximas, estiveram me encorajando a fazer mais vídeos, nem que fossem menores, do celular mesmo, já que colocar uma equipe de gravação na rua é tão fácil quanto levantar uma tenda de circo. (Vejam bem, essas pessoas são realmente próximas, já que ninguém em sã consciência pediria a desconhecidos para fazer registros no celular porque querem ver vídeos caseiros).

Bem, como a fanfarronice vem cada vez mais tomando conta da minha personalidade, resolvi brincar disso e ver o que saía. Aproveitando a visita de um amigo muito querido, e aproveitando que ele me fez sair de casa no verão do Rio de Janeiro não para ir à praia, não para beber uma gelada, nããããão, mas para ir a MUSEUS, que é coisa boa demais para fazer no verão do capeta dessa cidade, enfim, empolguei e fiz uma versão do Rio aos 30 “selfie”! (uma ótima justificativa pobre com um termo da moda).

Então enquanto a galera Cazota prepara uma coisa mais bacaninha, com uma câmera de verdade, fica aí uma brincadeira para vocês que não tem absolutamente mais nada para fazer ou que adooooram ver vídeos caseiros alheios. E claro, para quem estiver por aqui e quiser muito não beber uma cerveja, não ir à praia, etc etc etc, fica a dica do roteiro desse dia para marinheiros de primeira viagem.

PS: Tem ar condicionado em todos os centros culturais do Rio.

SERVIÇO

Bienal de Caricatura
Uma furada. Só vá lá se você estiver de passagem, ou para visitar o próprio Museu da República, ou se você quiser ir ao cinema de lá, ou se você for muito, muito fã de caricatura.
A mostra fica no Jardim Histórico do Palácio do Catete, que fica exatamente em frente à estação do metrô Catete. São seis painéis expostos com a arte de Jorge Guidacci. E só.
Em cartaz até dia 20 de fevereiro, de segunda a sexta, das 8h às 18h, entrada grátis.

Oi Futuro Flamengo
Dá tranquilamente para ir andando do Palácio do Catete para o Oi Futuro Flamengo, que fica na rua Dois de Dezembro, 63. Basta seguir pela Rua do Catete para a direita de quem olha o Palácio, a rua Dois de Dezembro é uma transversal. (A distância entre os dois pontos é de 700 metros).
Nesse centro fomos visitar a mostra do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul (cujo nome é impronunciável, fique tranquilo). Tem sete curtas sendo exibidos simultaneamente ao longa mais conhecido do artista, chamado “Hotel Mekong”. Gostei muito de Ashes (2012),Uma Carta para o Tio Boonmee (2009) e O Hino (2006).
Fica só até o dia 09 de fevereiro, das 11h às 20h, entrada grátis e classificação livre.

Casa Daros – Botafogo
Seguimos até o final da rua do Oi Futuro Flamengo e encontramos um ponto de ônibus logo de cara, no aterro, onde pegamos o 107. De lá saltamos no ponto mais próximo da Casa Daros. (Se você é de fora, não fique intimidado a pedir informações aos trocadores e motoristas, eles estão mais do que acostumados e quase sempre são muito solícitos). Se você fizer esse mesmo caminho, vai saltar do outro lado da rua. Nem tente atravessar por cima, é a saída do aterro, uma via expressa perigosa. Há uma passagem subterrânea mais à frente, ande até lá e passe por baixo.
A Casa Daros é super bonita e tem sempre uma programação agitada, por vezes se estendendo até a festinhas à noite. Lá vimos duas exposições muito legais: a “Le Parc Lumière”, de Julio Le Parc, e Matriz de Voz, de Rafael Lozano-Hemmer.
Le Parc Lumière é um parque de diversões luminosas, e todas as paredes da Casa Daros foram pintadas de preto para que você ande num breu total. Inclusive os seguranças pedem que você fique três minutos numa antessala até que sua retina se acostume com a escuridão, para só depois andar com segurança pelos salões. 
A exposição fica até o dia 23 de fevereiro, das 11h às 19h (domingos até 18h). O ingresso para conhecer todas as exposições da Casa custam R$ 12,00 inteira.


Matriz de Voz é a experiência de gravar a voz em uma sala com uma brincadeira de iluminação. Esta fica até o dia 09 de março e está no “pacote” da Casa Daros.  



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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Reabrindo os trabalhos



Senti culpa. Senti em todas as cinco cidades nas quais pernoitei na Bahia. Senti todos os dias. Pensava no tamanho do problema que encararia assim que o ano começasse, precisamente no dia 1º de fevereiro, já que este ano o carnaval só será em março. Senti que minha vida estava suspensa, e aproveitei enquanto os cabos não fossem cortados pela dura, duríssima realidade. A culpa no frescor aumenta a temperatura da rotina, todos sabem não é? Nem será tão ruim assim, agora que começou. Só tinha que começar.

2014 veio com o cavalo de madeira. Sabem, nas passagens de ano eu fico assim, mística, quase apocalíptica, não importa se a soma dos numerais vai dar num número primo ou não. Então esse ano eu já estou munida (há bastantes meses, inclusive), do meu livro personalizado de horóscopo mês a mês e já está no meu quadro imantado a cola da minha leitura do tarô do ano. Também li cartas para todos os pobres que aceitaram minha disponibilidade insistente de taróloga voluntária para assuntos de ano novo, tudo para ter uma ideia geral de como será esse pacotinho de 365 dias, se não me engano sem bissextualidade dessa vez, sempre alardeiam na TV quando o ano resolve mudar sua orientação com um parafuso a mais, mesmo que isso, tediosamente, seja repetido ad eternum de quatro em quatro gerações.

Então, segura peão! Que você está lendo uma pessoa pós-graduada em 2014! Para começar: esse é o ano do cavalo de madeira, como já disse, só que isso é no horóscopo chinês. Lá tem uns doze bichos e uns cinco elementos, se não me falha a memória, que vão se combinando para trazer ao ano lufadas de características parecidas. Esse cavalinho traz a força para os novos projetos. Então, desengaveta aí aquela ideia antiga e arregaça as mangas, que se você acreditar, igual quando passa a estrela cadente, mas só que com muito mais esforço, tipo o esforço de você pegar uma estrelinha que tava lá parada, olhando pro horizonte, e desse um peteleco de 700 milhões de quilojoules para ela cair, aaaahhhh, olha só, que sorte, uma estrela cadente, aí sim os seus projetos se tornarão realidade.

Faz todo o sentido! Nas minhas leituras de tarô para os outros (e para mim também, tenho que confessar), saiu um bocado de cartas do piru (isso é uma gíria para quem nasceu antes do ano de George Orwell, não tem conotação sexual, e se você não sabe qual é o ano de Orwell, mesmo que tenha menos de 30, deveria se informar melhor, ler mais livros que tem coisa que é pra todo mundo, meu filho), então, cartas do piru, tipo A Torre, A Morte, o Dez de Espadas, cartas que dão o peteleco da estrelinha pra sua vidinha que tava tão lindinha virar um verdadeiro caos. A boa notícia é que é você quem dá o peteleco!

Eu “inventei” um método novo de leitura que traz dois baralhos ao mesmo tempo para a mesma situação, e já deu certo isso, então a gente fica sabendo melhor ainda como se dará a tal situação, então do lado dessas cartas do piru vinham sempre cartas muito joias para dar uma contrabalançada na fuzarca, o que significa que todo mundo vai tentar f*** com a rotina e que isso será muito bom.   

Tá se identificando? Pois bem. Sabem, dizem que essa coisa de uma pessoa ficar doidona pra saber o futuro nada mais é que uma atitude infortunada de tentar controlar o incontrolável, ou seja, a vida, o destino, os dias, as horas, caso você esteja com o probleminha mais avançado, tipo eu. Mas acho que é meio que inofensivo, se você não pensar demais nisso. O mínimo que pode acontecer é você se sentir corajoso a fazer uma cagadas, e nisso eu boto muita fé.


Feliz 2014 para vocês!



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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sobre a culpa

                            foto: Igor Borgo


Estou pronta para tirar as minhas primeiras férias desde que me mudei. Prontíssima! Contando os dias! Como todo bom assalariado que se presta. Não, melhor. Bem melhor.

Olhei para frente e vi as águas azuis de uma caverna da Chapada Diamantina. É para lá que, se Deus quiser e o Diabo não se opuser, descansarei meu corpinho riscado, gordolento e fatigado  dos últimos anos. Não lembro quando foram, oficialmente, minhas últimas férias. Sei que fui à praia algum dia de semana nesse meio tempo, o que, a olhos menos atentos, já valeria um mês de férias só pela ousadia, nesse mundo que tanto preza as oito horas e mais uma de almoço e mais três de deslocamento. Não estou reclamando. Só estou te dizendo que talvez essas sejam as férias mais maravilhosas que vou viver, com certeza a que está me criando mais expectativas, e só por um motivo: o que mata o freela não é o excesso de trabalho, e sim a abundância de culpa.

Para te falar a verdade ainda não me acostumei. Essa coisa de ficar em casa é muito estranha. A gente vai ficando obcecada com limpeza, com produtividade, com disciplina, e nunca consegue fazer tudo o que está na famigerada lista que faço todo santo dia. A gente sabe que tem que trabalhar – por si próprio, por suas ideias, senão ninguém mais no mundo o fará. A gente tem que aprender muito mais também, porque não tem que entregar um serviço do jeitinho que já foi pedido um milhão de vezes, mas fazer coisas novas o tempo todo. Trabalhar a criatividade, principalmente puxando a própria orelha três, quatro, cinco vezes ao dia que te dá vontade de deitar e ver uma TV. Ou dar uma faxina melhor na cozinha, meu bem, como você pode não perceber, em cima dessa geladeira está um CAOS!!! Não, não vai dar para sentar e escrever NADA agora, preciso pelo menos passar um paninho ali, vixe, tá grudento, preciso de bucha, e bombril, deixa de molho no mr músculo, juro que não vou ficar olhando a sujeira se desintegrar com o passar do tempo, jesus cristinho, são cinco horas da tarde e eu nem li o que me impus de meta para hoje, como o tempo passa rápido quando se está em casa, mas será? Será mesmo que eu produzia muito mais quando estava num ambiente de trabalho habitual, ou o fato, o fato verdadeiro, é que o que eu não tinha era essa porra de CULPA, essa CULPA GIGANTE que todo mundo que é freela ou faz mestrado tem, que se tudo der errado A CULPA É SUA, seu preguiçoso de uma figa, já sim, todos perceberam que não vai ser o suficiente, o tanto que você lê, e vê, e escreve não será nunca o suficiente, então porque eu morro de culpa? E olha que nem topei entrar na turminha de mestrandos Jesus, já te disse minha filha, porque se você não fizer o que botaste na tua cabeça que tens a fazer ninguém mais o fará e principalmente porque ninguém, além de você, vai se julgar com uma crítica tão cínica, meu Pai como você é cínica, com os outros dá pra ter uma ideia, mas contigo mesmo, minha filha, tu é muito pior, vai acabar ficando velha e cheia de rugas mesmo antes do tempo. Ah, a culpa então não é do vinho não? Tá vendo, tá aí, na sua boca, falando de novo que a culpa é sua, eu não disse nada. Gente, é mesmo, preciso de terapia, que porra é essa? Veio da minha infância é? Sei lá, mas acho bom você se curar antes de ter filhos, dizem que piora.

Porque é tão difícil dizer “estou tirando férias porque mereço”? Porque desde que inventei essa merda de história de recomeçar aos trinta só o que faço é viver um dia de cada vez com a leve impressão de que os anjinhos da guarda estão pregando peças em mim, fazendo um teste para ver se eu permaneço de pé, tornando as coisas um pouquinho, só mais um pouquinho difíceis do que para todo o resto do mundo, como procurar apartamento por quatro meses a fio, só para começar a história. Ah, além de culpada é egocêntrica, a vida é assim mesmo minha filha, para todo mundo é difícil, e você tá se fazendo de vítima para quê, se é tu mesmo que vai ter que resolver as paradas todas até desanuviar essa borreira na qual transformaste tua vida? Cala a boca, vai dormir, minha vida tá ótima, só falta eu sobreviver mais uma meia dúzia de dias e entro no estágio semi-consciente que a estrada vai me proporcionar, para bem longe, bem longe, bem longe daqui e da sujeira de cima da geladeira.


Não existe culpa nas águas azuis da caverna da Chapada, porque lá eu vou estar bem longe de mim.





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sábado, 7 de dezembro de 2013

Mercado de peixe – Sobre as gravações do Rio aos 30 #04



Sabe, eu e meu namorado não gostamos de Niterói. Primeiro vou contar essa historinha para vocês entenderem o preconceito com o qual já fui para a pauta, apesar de ter a cabeça aberta, amar frutos do mar e achar meu namorado às vezes muito exagerado. Vamos lá.

Mudamos para o Rio, meu namorado havia sido chamado para trabalhar no Centro, eu encontrei um apê legal na Tijuca, a vinte minutos de ônibus do serviço dele. Tudo perfeito, até que a empresa resolveu que ele deveria ser transferido para a nova filial que abria em Niterói. Porran... O que eram vinte minutos viraram três a quatro horas diárias de locomoção que envolvia quatro ônibus e duas barcas, ida e volta. Rapidinho ele ficou estressadão e começou a achar Niterói uma merda. Aí você, como todo mundo em volta de mim, pergunta: então porque você não muda pra Niterói, se o valor do aluguel é bem mais barato lá? Porque eu não saí de Vitória para morar em Vila Velha, oras.

Sem preconceito. Sei que a questão aqui é Canon-Nikon, seu cu vai te dizer qual você gosta mais. Conheço várias pessoas que moram em Vila Velha e sei porque eles não trocam a cidade por nada: belas praias, bons bares, tem tudo em volta e um jeitinho mais bacana de lidar com as pessoas, os vizinhos, uma coisa de cidade que não é capital. Mas eu sei também porque os “Vitorianos” vestem a camisa. Porque para a gente, sinto muito, os canelas-verde sofrerão sempre de um “quase”.  E tá explicado.


Foi com essa doçura na alma que entrei na barca para chegar à quase cidade de Niterói para descobrir o tal famoso mercado de peixe, realmente muito bem falado e conhecido no Rio. A chegada tem uma vista bacana das coisas que Niemeyer desenhou por lá. Mas logo a gente chega numa cidade que me pareceu árida, sem árvores, sem vontade de cantar uma bela canção. Estava um calor senegalês e isso ficou impresso na minha memória (não que o Rio tenha tantas árvores assim, aliás precisaria de uma floresta amazônica para diminuir alguns graus no clima do capeta que essa cidade tem, mas voltemos a falar mal de Niterói que é esse o papo, eu sempre devaneio meu Deus).

Niterói. De cara a gente encontra a também famosa estátua do índio Araribóia, diz a lenda que ele passa a eternidade olhando invejosamente para a outra margem e pensando porque diabos logo com ele rolou o azar de ficar do outro lado da poça. Bom, mas o índio é fodão e inclusive denomina o gentílico da cidade, sabia?, sabia? Pois é, quem nasce em Niterói não é niteroiense não, rapaz, é araribóia, que aliás, além da oportunidade de ter nascido carioca e tirar onda com o resto do Brasil deve também ter perdido o acento.

Fomos caminhando até o mercado de peixe que é mesmo igual a qualquer outro do mundo: cheio de azulejo e fedorento. Até que pouco fedorento, haja vista o calor e a matéria-prima do lugar, o que determina de cara o frescor dos peixes comercializados por lá.

O mercado tem diversas bancas com lindos linguados, corvinas, cavaquinhas, vermelhos, polvos, lulas, caranguejos de “Marataíze”, ostras vivas gigantes pulsando dentro das suas aconchegantes conchinhas e lá no fundão um altarzinho para São Pedro abençoar a galera do mar. Isso é no primeiro andar. No segundo tem um monte de restaurantes, alguns maiores, outros com cara de botecos improvisados, o que, pelo menos no Rio, pode ser um indício de comida simples e boa. Isso sem esquecer a escada que liga os dois andares, porcamente decorada com um aquário moribundo com peixes geneticamente modificados pelo lodo acumulado na caixa de vidro por anos, não, por eras, aqueles peixes conversaram com São Pedro pelo que consegui ver através da verde cortina de musgo.


Escolhemos um restaurante maiorzinho, que dava para a bela vista (not) de fora. Ele tinha uma parede de vidro que ajudava a iluminação para a gravação, só por isso sentamos ali. A experiência não foi das melhores, para falar a verdade. Eu não sabia que tinha que avisar ao cozinheiro que não adianta ter um belo peixe fresco se você emborca o bicho na mesma gordura paleolítica do pastel de linguiça de porco. Quanta tradição!


Aliás, tem uma coisa bem bacana no mercado: você pode comprar o seu peixe lá mesmo e, por uma taxa, eles preparam para você. Acaba saindo o mesmo preço, mas pelo menos você viu a cara dele antes. O que não significa muita coisa se, repetindo, você é um imbecil que escolhe o restaurante pela luz e não pelo chef. E eu também não acho que os donos de restaurantes realmente preferirão comprar o peixe fora do mercado, então você pode estar trocando sovaco por axila, mas quem sabe ele não reservou aquele que não vendeu na semana passada para você, não é? Hum.



Serviço:
As ostras custam R$ 3,00 a unidade.
O Mac Donald’s é no caminho de volta para a barca.

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Sofá




Por esses dias eu decidi duas coisas muito importantes na minha vida: comprar o sofá dos meus sonhos e tomar café sem açúcar. É, ao que parece estou tão bem acostumada com meus trinta anos que já ajo como uma quarentona.

O sofá significa tanto, mas tanto pra mim, que é sobre isso que vou encher linguiça hoje. O sofá é a personificação da casa, o espírito de cada lar. Lembro que ainda quando vivia na casa dos meus pais eu dormia mais no sofá do que na minha cama, por vários motivos. Na minha adolescência eu era tão bagunceira que não conseguia me acomodar direito no meio de todas as roupas, colares, pulseiras, papeis, enfim, tudo que eu ia usando e largando em cima da cama. Quando queria muito dormir ali, fazia um rocambole usando a colcha para me livrar daquilo tudo, ia girando aquele bololô e depois tacava no chão. A dica é ótima, aliás, para quem é bagunceiro, pois no dia seguinte basta recolocar o rocambole e ir girando ao contrário, a cama fica exatamente como estava no dia anterior. Então, mas o texto é sobre sofá, e o sofá da casa dos meus pais era realmente ótimo. Me cabia direitinho dormindo de lado e eu ainda podia acompanhar todo o ritmo da casa, as pessoas conversando, vendo TV e eu ia adormecendo lentamente no meio daquilo tudo.

Ou então me salvava quando eu tinha chegado de madrugada. Eu dividia o quarto com minha irmã e ela tem o sono super leve, então muitas vezes eu preferia uma opção mais confortável do que ouvir suas reclamações, ainda mais quando eu já chegava meio alta e ia batendo em todos os cantos do quarto no meio da noite, crente que estava sendo super silenciosa. Por tudo isso, o sofá sempre foi minha primeira opção.

Bom, aí eu fui morar sozinha, e quando me mudei não tinha móveis. Comprei o basicão e achei que a vida ia se encarregar de prover o resto. Não demorou muito, foram apenas uma ou duas festas com móveis de papelão, mais umas tantas com móveis de plástico, numa delas ainda bem que não tinha móveis, um sujeito vomitou um quarto completamente pelado, digo isso do quarto, não sei como o sujeito estava, e bem, lógico que ele atentou de fazer isso na esquadria da janela de alumínio para dar algum trabalho à limpeza, senão não tinha graça. Limpar esquadrias é uma coisa realmente chata. Estou pensando em comprar um aspirador para fazer isso. E uma daquelas vassouras cuja piaçava é de espuma, para limpar as janelas da minha cozinha, função à qual já abdiquei há algum tempo e que agora dá sinais da sua importância, mas piaçava de espuma e aspirador é cinquenta anos já, acho que posso esperar mais, não completa nem um ano mais pra eu refazer o contrato do aluguel ou sair daqui, nem vale a pena limpar essas janelas agora. O que me incomoda mesmo são os duendes que estão vivendo com os fios atrás do hack. Ah, eles deviam ser aspirados, com certeza. Mas voltemos ao sofá.

Foi uma taróloga que veio me dar esporro, inclusive no meio de uma consulta. Ela falou que minha casa tava parecendo um camping (boa, a menina, nem nunca esteve lá) e que eu precisava começar a cuidar dela, transformá-la num lar. Foi aí que apareceu o primeiro sofá da minha vida. Ganhando uma mixaria, esse móvel ficava sempre na última prioridade, mas a vida é uma caixinha de surpresas, e meu sofá estava na minha frente, e um dia eu vi. A secretária do departamento onde eu trabalhava sabia que eu ia ganhar um extra, também uma mixaria inclusive, e me vendeu o sofá e o hack que ela acabara de comprar, mas que não poderia ficar com eles porque voltaria para a casa da mãe, que precisava do seu auxílio. Ou seja, um presente.

Chegamos, enfim, à contemporaneidade. Eu e meu namorado entramos algumas vezes na loja que se chama “Toque a Campainha”, hahahahahahhahahahah, que nome é esse Braseeeelll???, e nenhum atendente mais parecia querer atender aquele casal que adorava sentar em sofás grandes e bonitos e nunca levar nada. Mas esse cenário mudou! E na semana passada, levamos O Sofá! Um sofazão grande e gordo que se abre inteiro pra você, esparrama sua cabeça, te abraça e fala que vai te amar pra sempre. Um retrátil café gigantesco e sólido, que vai até o chão e não te deixará nunca mais cair na vida, e nem se sentir sozinho de tudo, ele estará lá, nos melhores e nos piores momentos, o Sofá da minha vida inteira. Agora preciso arranjar apartamentos para morar com cozinha boa, área de serviço e sala que caiba o Sofá.

O antigo, não vou me fazer de ingrata por todos esses anos, mas o fato é que ele parecia uma criança da propaganda Médicos sem Fronteiras do lado do Sofá. Coloquei em sites de venda por um preço absurdo de barato (não ia me sentir bem em ganhar mais do que a mixaria que paguei nele, há anos atrás) e teve gente choramingando pra ficar com o dito cujo. Contra minha ética acabei dando prioridade a um universitário que chorou mais (e arranjou logo um carro pra carregá-lo da minha casa). No elevador, brevemente, ele me contou a sua história: se formaria no dia seguinte e resolveu se presentear com um sofá porque não aguentava mais a casa com cara de universitário por anos a fio. Me senti uma velhaca ao compreender totalmente o que ele dizia, pensando que já havia passado também por isso.


“Putz, o sofá é lindo! Porque você quer se desfazer dele???” disse o garoto assim que botou os olhinhos quase marejados no sofazinho. “Porque eu prefiro o pai dele”, disse eu, exibindo meu Sofá forte e viril e retrátil como um jogador de basquete que estende as pernas na praia. Em vão. O garoto permanecia vidrado no sofazinho, feliz que estava com sua aquisição a preço de banana, ainda sem acreditar que a vida, ah, a vida, a vida é uma caixinha de surpresas que havia lhe dado um presente. Depois desisti de chamar a atenção com o meu grande móvel urso e fui em frente, “você tem interesse em ficar com essa mesinha de centro? Ficou apertada depois que o Sofá chegou aqui”, “Claro, claro, claro que sim”, ele continuava não acreditando, “Minha mesinha é um carretel, era o que eu precisava, quanto você quer por ela?”, “É um presente de formatura”, “Não, gente, quê isso? Vou mandar convites da festa para vocês”, e lá se foi o garoto com um amigo a tiracolo carregando os móveis da minha casa e largando pra trás umas notas de cinquenta. E eu estou aqui, a muito custo, tomando um café sem açúcar, e logo mais vou dar uma faxina na minha casa e talvez fazer minhas unhas, que programei com meu namorado de sairmos hoje, apesar que pode ser muito muito difícil eu sair de casa durante um mês ou dois.


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