sexta-feira, 26 de julho de 2013

A terrível experiência de se fazer compras no Rio


 
Se você não for católico fervoroso e não estiver a fim de fazer a peregrinação por aqui junto com a galera da Jornada Mundial da Juventude, pode ir ao supermercado. O programa é parecido, pelo menos no que diz respeito ao tempo e à dedicação.

Para começar, não dá nem pra chamar de supermercado essas mercearias que os cariocas têm.  Com corredores apertados, mal dá pra passar um carrinho, se vier alguém na sua contramão já era. Daí você tira o teeeeempo que leva pra pegar tudo e chegar ao caixa. Se bem que não vai demorar muito – o preço dos artigos de higiene pessoal são tão caros que não dá pra comprar no supermercado. Também não tem muita variedade: marcas de shampoo, condicionador, desodorante, sabonete, pasta dental, tudo isso, o conselho é comprar na farmácia, muito mais barato. E não adianta fidelizar: eles fazem questão de trocar as marcas das coisas a cada semana! Triste vida, quando algum amigo vem me visitar e resolve propor de cozinharmos um prato determinado, eu tenho que explicar que por aqui não se escolhe o cardápio antes de ir ao supermercado, vamos ver o que tem por lá e daí a gente pensa, tipo coisas da época, na roça, só que não.

Existe um problema parecido com a sessão de higiene pessoal que é a sessão de hortifruti, e o problema é que não tem. Não tem nada de  folha. Nada de ervas frescas. Os legumes, como Capitu teria se uma cenoura fosse, têm casca de ressaca. Certa vez procurei durante um tempão por batatas inglesas e, não conseguindo achar o produto de jeito nenhum, me dirigi a um repositor, que logo me afirmou que estava em falta. Perguntei a ele se já estávamos vivendo a terceira guerra mundial e ele não entendeu. Fora o preço: já paguei cinco reais num maço de rúcula, gente!

A jornada continua quando você crê que está levando pra casa um produto em oferta. Mas ofertas, no Rio, são necessariamente enganosas – ou o produto não está disponível, ou a informação veiculada está errada, ou a foto está errada, ou você nem vai perceber, porque confiou que o preço era aquele da etiqueta e na hora de verificar a nota fiscal viu que pagou bem mais. Aliás, prática comum é não bater o preço da etiqueta com o do caixa. (Vou tentar refazer mais uma vez essa frase, corretamente agora), QUANDO TEM UMA ETIQUETA identificando um preço tá ótimo, normalmente não varia muito no caixa, aquela etiqueta, vocês sabem, talvez o povo carioca tenha ficado tão acostumado com os tempos de inflação ao dia dos anos 90 que não se importa pelo fato de o preço variar do momento que você pegou o artigo até pagar, o engraçado é que às vezes eles erram para baixo, e não adianta tentar ser honesto e tentar pagar o valor cheio, desculpa mamãe, essa manobra pode levar uns dez minutos só para alguém aparecer e verificar a etiqueta, ficam então elas por elas, o que se paga a mais devolve-se no que fica por menos, que no Rio não tem preço, tem estimativa.

Aí você está no caixa, se for no Pão de Açúcar vai ouvir “cliente Maixxxxx?” e tem que responder rápido, como se o resto do serviço todo acompanhasse a urgência da mocinha de maquiagem de olhos bicolor, elas estão sempre num dia péssimo. Se for no Mundial ela vai te perguntar  “é no dééééébito?” e se acaso você disser, “crédito”, ela vai encher a boca pra retrucar “aqui só aceita débito”. E se você for no Apolo, não adianta gritar que levou sua sacola retornável que elas vão colocar saco plástico até na sua cabeça para ver por quanto tempo você consegue ficar na apneia. E se for no Zona Sul eles vão fingir que o serviço é bom. E se for no Prezunic, Princesa, Rede Mais, Redeconomia, Extra, não adianta, não falta rede de supermercado aqui e nada vai te impedir de seguir sua peregrinação pelo hortifruti e pela farmácia depois disso tudo.

Para completar, existe por aqui o que eu denominei de “fenômeno cem reais”. Vai fazer um macarrão à bolonhesa no fim de semana? Então macarrão + molho de tomate + carne moída + manjericão = R$100,00. Esqueceu o manejricão? Volta no supermercado e compra = R$100,00. É sério. Não se esqueçam de nada. Façam listas. Repassem. 

***

Prefiro fazer compras num Perim em chamas que num supermercado do Rio de Janeiro.

sábado, 20 de julho de 2013

O que já sei sobre os cariocas


Eles não desviam quando vêm na sua direção. Se você não desviar, tromba em um monte de gente;

Eles estão acostumados a repartir o espaço público. Dividir uma mesa no shopping é normal. Ocupar um espaço de no máximo 30cm3 num bar é super normal;

Eles estão acostumados a pagar muito caro por tudo, e acham que é normal por terem a paisagem do Rio (mesmo  que a paisagem fique na Zona Norte);

Eles amam a cidade;

Eles gostam de ficar na rua. Não marcam muitas coisas em casa, e quando é em casa, é no salão de festas;

Eles improvisam, estão acostumados a dar um jeito pra tudo. Muitas vezes isso tem como consequência pequenos casos de desonestidade que são bem aceitos socialmente;

Eles gostam mesmo de futebol. Quartas-feiras são mortas na cidade, todos estão nos estádios e ouvem-se gritos nas ruas o tempo todo;

A primeira opção de cerveja é Antarctica;

Eles reclamam muito quando se sentem injustiçados;

Eles são gentis, e não perdem a oportunidade de conversar com você. Sobre qualquer coisa, em qualquer lugar;

Eles aproveitam o fim de semana inteiro, que começa na quinta à noite e termina na madrugada de domingo para segunda-feira;

Eles amam feijoada e fazem dessa um programa de domingo;

Eles amam botecos e bolinhos de qualquer coisa;

A programação do fim de semana divide-se em sol: praia; não sol: outras coisas;

O Rio é um grande cidade do interior, todos conhecem a vizinhança, falam com as pessoas dali, dão bom dia sempre;

Eles são bairristas;

Eles realmente gostam de samba, pagode, samba rock e qualquer vertente que saia daí. E de Roberto Carlos;

Eles dirigem como loucos, buzinam alto quando o sinal abre, são intolerantes, não respeitam faixas. Os carros se comportam como sardinhas em um cardume, todos se jogam para o mesmo lado, ao mesmo tempo, num reflexo impressionante;

Os homens são cavalheiros, as mulheres são românticas, mesmo que o final da expressão de tudo isso seja só vontade de fazer sexo casual;

Na média, são bem politizados;

Apreciam arte de todos os tipos;

Se podem, defendem os mais fracos com veemência;

Eles saem da casa dos pais mais cedo, aprendem a viver a vida adulta antes, mas mantêm a juventude por mais tempo;

Os velhos ou deficientes não são dependentes. Eles saem sozinhos e pedem auxílio ao primeiro que passar, se for necessário;

Eles preferem ficar em pé nos bares;

Eles têm plantas em casa. E na calçada de casa;

Eles falam “deu ruim”;

Eles estão acostumados a dividir sua vida privada com os vizinhos, pela janela;

Eles não viajam, porque como o reveillon é o melhor em Copa, o carnaval de rua dos blocos é imperdível, o Natal precisa ter a árvore da Lagoa oleiaô, realmente fica muito complicado dedicar algum tempo ao resto do entediante Brasl (eles viajam nas férias, mas para outros países);

“Diga-me que praia frequenta que te direi que tu é”;

É normal ser servido antes de entrar no bar, ainda na fila;
 
Eles não são tímidos;

Eles são amigos leais.

sábado, 13 de julho de 2013

Uma thirtynager na academia



 
Vocês sabem, essa geração saúde pode encher muito o saco de quem já viveu três décadas. Primeiro por pura inveja, segundo por... algo parecido com inveja, que é raiva mesmo. Isso porque todos dizem que você precisa fazer exercício físico, e com a vida agitada como anda, o jeito é começar a frequentar uma academia, haja vista que você ao menos tem o direito de ir o horário que quiser, e isso muitas vezes estende-se até meia noite, quiçá 24 horas, aumentando um pouco as suas oportunidades de não faltar e em muito as horas de culpa.
 

Mas como, voltando, a gente começa a puxar uns pesos e o meu desabafo de hoje é que essa pode ser uma missão inglória para quem aproveitou muito bem a adolescência e a juventude entre rocks, bebidas, cigarros e junk food. Tá vendo, antes de começar a falar a gente já assume a responsabilidade pela humilhação que passará nesse inóspito ambiente! Aquelas meninas de macacão colado no corpo que ficam te acusando de não priorizar a sua vida direito, as bundas perfeitas passando na sua frente e inquisidoramente te lembrando de cada noitada com final de sanduíche podrão, e todos os cabelos lisos e braços que podem dar tchau que até o Papa vai ver lá da sacada de onde ele resolver se embrenhar, Papas são assim, estão sempre acenando de sacadas, e as jovens das academias de hoje também, tenho certeza que só para humilhar quem não pode e se fode no tríceps diariamente achando que ficar do jeito que está já é uma batalha vencida contra o tempo.

 

E os assuntos que necessariamente nos marginalizam, não garota, eu não gasto meu salário com herbalife e whein protein, isso é castigo, aaaaaaaaaahhhhhhhhh bem se vê porque está esse bagaço, olha aqui minha filha, quando você começou a peidar de tanto tomar clara de ovo em pó eu já fazia ultrassom abdominal completo pra saber se meu fígado permanecia no mesmo lugar, sim, uma boa parte da renda minha casa é gasta em vinho e grana padano e não, não acho que dá pra almoçar shake porque cresci numa cultura em que ALMOÇO é algo quentinho e sólido.

 

Isso porque só falamos da inveja, ainda tem a raiva, que é aquele sentimentozinho barato quando uma dessas vadias te olha com cara feia como se você não tivesse o direito de usar um aparelho só porque está colocando a mesma carga há três meses,"essa gordolenta atrapalha minha série alternada com esse pesinho que não faz cosquinha numa mosca", enquanto os homens urram, uuurrraaahhhh, urram nos aparelhos porque urrar faz crescer mais o músculo do braço, pelo menos não tenho que reclamar que a situação  constrangedora está em olharem minha bunda toda vez que passo, que definitivamente isso não acontece. Diante dessa situação, resolvi mudar completamente minha vida e nunca mais passar por isso, e como deixar de fazer exercícios não é uma opção já encontrei uma solução,entrei numa academia da terceira idade.  

 

Não é propriamente da terceira idade, quer dizer, não é oficial, mas é frequentada apenas por simpáticos que já passaram pelo menos dos quarenta e te digo de coração que o horário que vou sou a mais jovem. Gente, que liberdade! Primeiro que nunca mais gastei dinheiro com roupa de ginástica - vai as velhas surradas mesmo, estou preocupada é com a MINHA SAÚDE. Segundo que não tem aquelas músicas chatas da moda que são obrigadas a passar todos os dias na academia, lá no meu templo de malhação só toca JB,  que é a versão Antena 1 do Rio, "Vida vida vida, que seja do jeito que fooooooorrrrr..." não na voz do Daniel, ou qualquer que seja esse sertanejo que está na moda por causa da novela. É na voz da Betânia. Mais cafona, mas com alguma dignidade.

 

Seja do jeito que for, sou a mais jovem do espaço, não preciso ouvir isso não. Solto a Blondie na maior altura nos meus fones, escuta aí também pra ver se você não vai me dar razão que essa batida é ótima pra caminhada, http://www.youtube.com/watch?v=WGU_4-5RaxU, viu, a gente não perde o foco na esteira com uma boa música dessas. Tem mais vantagens, minha autoestima está recuperadíssima! Sou a primeira da turma! Pego mais peso que todo mundo, com exceção de umas malucas viciadas em endorfina e uns velhos que malham desde 1985 e a gordolenta aqui já ouviu umas três vezes a deliciosa pergunta, "me responde minha filha, porque uma menina jovem e com um corpo tão bonito vem malhar"? e primeiro eu aprecio devagar as palavras, depois respondo "quê isso, meu corpo já não é mais aquelas coisas", só pra ouvir de volta "que nada", então eu arremato com um "essas roupas são ótimas, por baixo está tudo caindo", e de novo "de jeito nenhum, você está ótima" e aí dou só um sorrisinho de lado, para ficar no ar que estou sendo simpática e humilde em vez e apenas sincera mesmo.

 

Hoje até fui num café da manhã junino gente, que beleza, estou frequentando programas sociais de academia, coisa que eu já jurei pra mim mesma que jamais faria, e ó, tinha bolo de milho, cuscuz, canjicão e mais uma série de delícias que jamais teria em outra situação, mesmo numa academia quem se encontra pra comer fruta, gente? Enfim, por essas e outras estou inlove com esse meu novo achado. Além da mensalidade ser a mais barata que existe no Rio de Janeiro, obviamente. Claro que os aparelhos são antigos, mas quem se importa, o exercício é o mesmo! Lógico que o único professor não tem como acompanhar todo mundo, mas com uma lordose, uma escoliose, um nervo ciático inflamado, chega de listar meus probleminhas, bom, nem que ele ficasse 24 horas olhando pra mim não conseguiria fazer o milagre de desaparecer com minhas dorzinhas.


E de vez em quando tenho que acordar um simpático velhinho que dormiu no aparelho, acontece, o de abdominal então que é sentadinho é direto, mas a gente compreende, academia dá um sono... E nada paga meu showzinho final, quando boto meu esqueleto para correr em 9,5 km/h ao som de Maniac por quinze minutos, http://www.youtube.com/watch?v=8NjbGr2nk2c, saio roxa da esteira e só falta me aplaudirem, thirtynagers não precisam nem de esteira para suar, a gente aprendeu a correr com a Jennifer Beals, parada no mesmo lugar, só já aposentamos o maiô e a polaina, mas capricha que pode ser que um pitbull esteja te olhando enquanto você faz isso, uuuurrraaahhhhhh!!!!

sábado, 6 de julho de 2013

Currículo, Honk Kong e bolas de sabão

 


Engraçado como a gente pensa umas coisas inúteis sobre a vida quando faz trinta anos. Outro dia eu estava atualizando meu currículo e rindo sozinha, se eu colocasse tudo o que já fui nego ia achar muito estranho. Vamos lá: comecei a fazer teatro com uns onze ou treze anos, não lembro direito. Com quinze fiz minha primeira campanha publicitária profissional, mas antes já ganhava um dinheirnho nas peças e como modelo fotográfico e de passarela, e gastava tudo indo acampar sem nenhuma infraestrutura em Itaúnas, e sempre ficava mais tempo do que avisava à minha mãe que ficaria, e sempre ligava tarde demais para avisar já que só tinha um orelhão na cidade. Antes disso fui uma espécie de “promoter” de banana boat, que meu pai comprou com um tio, pena que o treco não funcionava, era o trabalho mais divertido que alguém novo poderia querer. Ah, já fui barlady também, fiz um mini curso de preparo de bebidas inclusive, muito interessante, falava das partes, as densidades de cada coisa, uma parte de licor, duas de suco, uma de destilado, pode experimentar que dá certo.

Que mais? Mais muitos comerciais, e trabalhos B bizarros da agência de modelo, tipo recepcionista de evento, isso era ótimo, era só sorrir quando o evento era de fora, não esperavam que você falasse qualquer coisa a mais que good night, ainda bem, senão ia ficar bem mais difícil conseguir aqueles cem reais. Já fui nerd, era do tipinho que passava bem em concursos (para onde diabos foi essa parte, gente???) e depois veio a faculdade, claro, tinha que ser mais específico, mas tentei rádio, redação e TV, acabei sendo abduzida pela linguagem que já me era mais familiar. Mas também teve espisódios de freelas de assessorias de imprensa, e uma vez que fiquei rodando com um camarada famosinho do mundo do reggae no Cacareco (esse era o nome do meu carro) e eu tinha acabado de tirar carteira e não sabia dirigir direito, e me perdi um dia inteiro tentando encontrar um restaurante em Vila velha e naquele dia atravessei a ponte mais vezes do que o carro-guincho da Rodosol. Acho que essa história nem meu amigo sabe, ele que sempre fala, “lá vem Helena com alguma história do seu currículo esquizofrênico”, mas o de quem não é, se a gente inventasse de incluir essas coisas?

Foi assim que eu parei para pensar, a gente sempre edita essa história, não é? Sempre passa uma imagem, de acordo com o cargo que estamos almejando. Mas quem sou eu de verdade? Sabe, quando era mais criança, pra adolescente, minha família me acusava de “não ter personalidade”.  Eu era taxada de ser maria vai com as outras. “Fulaninha começou a fazer isso, agora Helena quer fazer também”. E muitas vezes eu respondia, é, ela fez, eu vi que era legal, me interessei. Aquilo não me aborrecia muito, apesar de eu achar muito pesada a acusação. Mas realmente, o que é a personalidade? Quer dizer, não é o somatório das coisas que a gente vai imitando dos outros porque gosta? Ou, melhor explicando, não é o conjunto de características que vemos nos outros e nos agrada? Não dá pra tirar as ideias do nada, e eu com certeza ia experimentando e reproduzindo as coisas das quais gostava. Talvez a prática tenha sido esdrúxula e veio mesmo com a naturalidade de encarnar personagens no teatro. E essa tal da personalidade era uma ideia intangível demais para mim, somos o quê, tipo “A Coisa”, uma meleca mais ou menos determinada que nos especifica? Ou tipo uma bola de sabão que guardasse tudo que sou dentro... É isso, naquela idade era mais uma bola de sabão, refletindo e mudando de cor segundo o mundo estava ao meu redor. 

Acho que essa definição é a mais próxima do que seja meu meu próprio verbete de personalidade, como “o conjunto de coisas dos outros que você gosta e pega pra si”. Então velhice é quando você “já tem muita cor e preguiça pra espelhar e começa a emitir uma iridiscência própria”. Aí outras pessoas começam a “gostar de você pelo que você é”, e também tem gente que te reproduz. E então dá vontade de apresentar todo mundo a todo mundo, porque amigo de amigo é mais próximo do que a gente imagina, tem uma intersecção, que sou eu, espelhando algumas cores de um e de outro, apesar da preguiça tem cor que vale a pena.

***

Vou terminar de atualizar meu currículo sem deixar de incluir o curso de gastronomia online da universidade de Honk Kong que comecarei semana que vem.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

De como eu sempre me f*$##&*


Prólogo

Comprovei. Toda vez que a gente vai fazer alguma coisa pela primeira vez, é 90% de chance ou algum número parecido de alguma coisa dar errada no processo. E quando a gente muda para outra cidade, é 99% de chance de você ter que fazer uma coisa pela primeira vez todo dia. Faz as contas? É muita m*** que dá numa vida só em pouquíssimo tempo. Por isso, outro dia, escrevi o texto abaixo. Já tem um tempinho, mas acho que define bem como as coisas cotidianas podem ser potencialmente desastrosas. Demorei a postar porque tinha que fechar as palavras tristes, pois que agora venham as infernais.

(Advirto que esse texto tem muito palavrão, se você não fala nem lê palavrão, não leia esse texto)

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Hoje eu tive que ir ao cartório. Precisava fazer uma procuração para resolver um lance sobre a captação de patrocínio para um filme que estou fazendo – não comecei ainda, tenho um roteiro, meio quebradiço, e o direito divino de que alguma empresa me dê dinheiro para fazê-lo, e uma empresa já concordou com isso, então voltando, precisava dar a meu pai, o aposentado mais próximo, poder para ser meu representante, e antes que pudesse estender minha espada por cima de seus ombros e nomeá-lo meu fiel cavaleiro, ah,  essa seria uma história linda, mas eles só querem o raio do carimbo do cartório dizendo que fui eu que assinei.

Voltando, tive que ir ao cartório. Como toda novata, quis ter certeza absolutíssima que a melhor forma de chegar lá era pelo metrô (parecia óbvio, o cartório fica na Praça General Osório, em Ipanema, onde tem uma estação, e perto da minha casa também tem uma estação, qual a dificuldade porra? Nenhuma. Só... curiosidade. É assim que a gente aprende as coisas. (Fora que fiquei viciada em Google Maps, e não vou mais ao hortifruti sem ter CERTEZA do melhor caminho. E, finalizando, para falar a verdade, prefiro andar de ônibus no Rio, mas essa já é outra história).

Mas sim, o Google Maps disse pra mim que o metrô tava de boa. O céu tava prometendo chuva, mas eu pensei, a estação é na praça, o correio é do outro lado da praça, se rolar uma chuvinha rolou, não vou me molhar muito, é melhor do que andar com um guarda-chuva a tiracolo o tempo todo. E fui lá, toda serelepe e orgulhosa porque não deixei pra fazer amanhã o que é chato demais para ser feito em qualquer ocasião.

Algumas estações depois que me acomodei inclusive sentada (OOOOOOOHHHHHHH, no metrô, sentadinha) e ouvi aquela voz do além (será que é o condutor que fala com a gente? Tem a voz bonita, podia ser locutor. Ou será que tem um locutor? Sempre é tão parecido, parece gravado. Condutor de metrô se chama condutor mesmo?) e aí ele disse “Por conta da construção da nova linha, as estações Cantagalo e General Osório estão fechadas. A estação terminal é Siqueira Campos”. Mmmeeeeeeeeeerrrrrrrrrrrdddaaaaaaaaaaaaaaaaaa, lógico, eu sempre me fodo nesse Rio de Janeiro, caralho, se fosse de carro não seria diferente, ia me perder o tempo inteiro, mas a porra do Google Maps, esse burro nunca consegue ser espontâneo e saber desses imprevistos, imprevisto, aliás, é o caralho, essa nova linha só vai sair nas Olimpíadas e a porra do Google Maps não vai ficar sabendo. Tá bom, eu pego aquele ônibuzinho escroto que eles têm a coragem de chamar de metrô de superfície. Niquiquando o condutor, com sua voz de seda, manda outro recado, “por conta da greve dos rodoviários, o serviço de metrô na superfície temporariamente  não está funcionando”. MMMMmmmeeeeeeeeeeeeeerrrrrrrdddddddddddddaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, vou andando, adoro caminhar, J)) EEEEEE como sou positiva! Não faço a menor ideia de qual é a distância, mas vai ser bom, ver coisas novas... (positiva ou bipolar, tanto faz, mas é melhor aprender a sorrir rápido quando as merdas começam a desencadear).

Saltei na Siqueira Campos (estação que odeio, por sinal, a cara de Copacabana, com aquele monte de vitrine de vestido mal feito, sapato maquiagem ambulante, todo mundo se esbarra, não tem calçada, só ruas e avenidas enooooooorrmessss e um monte, um monte, um monte de gente e fui andando, pra não pensar em mais nada, e a chuva começa a cair fininho, depois vai engrossando, e BBBBÓÓÓÓÓÓO na minha cabeça, POOOORRRRRRRRRAAAAA CARALEEOOOOO saí de casa às duas e meia, são quatro horas e nem chance de estar perto dessa bodega desse cartório, já passou da hora de comer meu lanchinho da tarde, I’m a thirtynager, tenho que comer na hora pra não virar um baiacu, diminuir o meu metabolismo que deve estar fazendo 70 anos, vamos parar nessa birosca, vai ser gostosinho comer um lanche, descansar minhas pernas, ai como sou positiva, porque, meu Deus, POR QUE as pessoas colocam açúcar no suco??? O lugar é descolado, Copacabana lifestyle, cheio de suco verde, pedi um simples minas quente (é como os cariocas chamam pão com queijo minas na chapa), veio no pão integral, se o cara imaginou que estou tentando manter o peso aqui, POR QUE DEMÔNIOS ELE ACHOU QUE EU IA QUERER UM SUCO DE MELANCIA COM AÇÚÚCARAAAAA????

De doce basta a vida, e vamos que vamos que o caminho é looooongo, não sem antes parar no “shopping da China”, esse era o nome da loja de $1.99, engraçado né? Esse nome ficou, mesmo que hoje nada mais valha $1.99, e comprar, no caso, uma sombrinha horrível, por $5.99.

Cheguei em casa às 18h. Voltei de ônibus (lotado, por conta da greve dos Rodoviários). Moral da história? Às vezes, querer deixar pra fazer amanhã pode não ser preguiça. Pode ser intuição. Pode ser seu coraçãozinho escutando a voz do Universo dizendo que hoje não tá legal. Mas se você não conseguir ouvir uma voz poderosa dessa,  pelo menos leva um guarda-chuva quando o tempo estiver fechando.

***

SERVIÇO: segundo o Google Maps, a distância entre a Estação Siqueira Campos e a Praça General Osório é de 2.8km, o que dá um tempo de 34 minutos de caminhada.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

As últimas palavras tristes




Aquela foi a segunda vez que eu matei a minha mãe. Parece um exagero psicológico, mas quem já passou por isso sabe como é. Eu já a havia matado a primeira vez que saí de casa, há quatro anos, e há um ano resolvi matá-la novamente. Não tinha ideia do que essa ausência, em outra dimensão, me causaria. Talvez um pouco de síndrome do pânico. Talvez seja uma reação normal e todo mundo tenta colocar agora um rótulo nas emoções. Ou talvez seja normal ter um pouco de síndrome do pânico.

Sair de casa é matar a mãe da gente um pouqiunho, porque a gente não sabe o que é perder essa companhia até sair da casa dela, a gente também não sabe como é cansativo ser sempre a sua vez de lavar a louça, a gente não tem ideia da raiva que dá ter que estender a roupa num momento que não queremos senão cheira a mofo, a gente fica com saudade de um tempero diferente do nosso, mas mais que tudo isso, que nem toda mãe tem esse lado doméstico, é o cheiro do colo, é aquela pré disposição dos móveis que não teve nada a ver com os seus pitacos, é a segurança que aquela casa inatingível tem. Por isso, quando eu resolvi mudar de cidade, provavelmente por isso, tenha sido um Dia das Mães o dia mais triste que me lembro do ano passado. Porque eu gostaria de estar perto dela, e não pude. Como se tivessem cortado minhas pernas, ou aquela  parte da Constituição que me dá o direito de ir e vir, eu não tinha como comprar a passagem e não podia ir.

Minha família não é afeita a grandes convenções e formalidades, por isso acho que foi muito mais o sentimento de fracasso que a data em si, o que me abalou. Como tudo, hoje olho pro lado e só consigo rir da situação, exagerada que foi, um dia inteiro chorando pela minha incompetência de entender que as coisas precisam de mais tempo do que o que a gente concebe. Ainda dói, às vezes. Sou social demais para não ter pessoas lotando minha casa 24 horas por dia. E se dizem que ninguém é insubstituível, tenho certeza a todo tempo que é o contrário, que todas as pessoas são, mas que a gente sobrevive sem elas, apesar disso. Às vezes dói mais não ter ninguém passando blasé para tomar um café. Em uma cidade maior, isso simplesmente não acontece. Não tem cumadre, não tem amigo trabalhando pertinho, não tem esticar festa na casa de alguém nem doce far niente porque estão todos tão desesperados em chegar nos locais e depois ir para casa, fatigados das distâncias e do tempo encurtado por elas.
 
E é engraçado que as lembranças da minha antiga casa, a “Azul”, que já era só minha, fiquem agora num papel de bala, porque essa outra vida, se puxo pela memória, teve episódios ruins, como quando numa chuva torrencial ela ficou toda alagada. Lembro bem de colocar os fios dos eletrodomésticos para cima, acender algumas velas e rir com meu namorado, “vamos tomar essa cerveja que está na geladeira senão ela vai ficar choca”, com a água pelos joelhos, a lixeirinha que passava boiando por nós e a chuva caindo lá fora com ares de apocalipse.

De vez em quando eu tento lembrar como foi gostoso sair de casa, duas vezes que seja, são diferentes testes dos próprios limites, entender o que se gosta, dormir no sofá no meio da festa porque a bateria acabou e agora frequentar novas lojas R$ 1,99, aí sim, deixar tudo para trás, aí eu aceito de bom grado essas palavras tão limitadas, porque pelo menos uma vida, a última, você necessariamente tem que deixar para trás para ressuscitar em outra. Então a mãe personifica o que é isso, todos os amigos, o cheiro da casa, a temperatura perfeita no outono da Casa Azul, isso teve que ser extirpado dos meus dias e voltam, de vez em quando voltam, mas não sei ainda se nostalgia existe para o bem ou para o mal.     
 
Talvez tenha sido isso o que eu vivi, quando terminei de fazer a mudança, peguei um ônibus para vir para o Rio esperar minhas coisas chegarem aqui. No caminho, que clichê, como eu chorava por fora, não conseguia mesmo segurar as lágrimas, mas como eu ria por dentro, e depois mudava, dava mini gargalhadas enquanto a garganta fechava, vendo as linhas amarelas tracejadas da rodovia, um misto tão estranho de dever cumprido, de um cansaço absurdo, de um frescor do que viria, de uma já saudade do que ficava, e pensei, com tanto riso e choro viro um arco-íris aqui mesmo, antes de chegar, mas vou colocar os óculos e ninguém vai perceber.

Esse texto é para terminar de soltar as minhas palavras pesarosas das últimas quatro estações. Não faz meu gênero e me cansa bastante essa coisa de olhar para trás, com tanta coisa dos lados e mais ainda à frente. A partir daqui escrevo mais sobre o presente,  e o que há de triste há de ser aposentado, que palavra é capim que já foi ruminado e estraga se fica no tempo.

domingo, 16 de junho de 2013

Sobre as incertezas e do que já sei


“Você vai voltar?”

Minha amiga não tinha ideia de quantas vezes eu já tinha ouvido essa frase. Mais um clichê. Sair da cidade natal é quase como ter um filho, no aniversário do primeiro ano tem que fazer uma baita festa, não é pela criança, é pra todo mundo ver que a gente sobreviveu bem. Mas, no final, essa pergunta só faz sentido para quem questiona. “Você vai voltar?” Eu fiz questão de dar três nós nessa fita cassete, não dá pra voltar, virei outra coisa, tenho outra casa, pego outros ônibus,  troquei de casca. Não é que seja impossível, mas agora, nesse momento, ainda me parece que vivi pouco dessa vida, e tanta coisa já aconteceu que nesse ano cabem dez, então, de vez em quando, eu me lembro porque tudo começou.

Muita gente me pergunta porque eu quis mudar. Eu não quis. Eu não tive opção, digo sempre que “fui chutada”. Estar no auge da sua carreira profissional antes dos 30 não é sinal da sua genialidade, como muitos pensam. É sinal de embotamento. É ir matando sua possibilidade de crescimento quando você ainda é um zigoto. Também não vim para ser famosa, o que parece ser a primeira coisa que as pessoas pensam. Nem para ficar rica, nem para ir para a Globo. Eu vim para não destruir a possibilidade de qualquer uma dessas coisas acontecerem. Para abrir meu futuro de novo, porque do jeito que a coisa ia, já estava tudo mais previsível que filme
hollywoodiano...

Comecei "a vir" para o Rio há muitos anos. Sempre gostei da cidade. Desde muito nova, fazendo teatro,  imaginava como seria morar em um lugar onde essa arte borbulha. Depois, adolescente, vinha para a casa de um amigo e lembro de achar que as pessoas me incluíam sem muita frescura, nas rodas, nos assuntos. Bem diferente da minha cidade, onde é feio falar primeiro com uma pessoa, a etiqueta manda mais ou menos você ficar quieto, porque é bem capaz de a pessoa não querer te cumprimentar de volta. Coisas que nunca entendi de lá.

Mas aqui, lembro de ficar extasiada com uma festa que fui, ainda muito jovem, nem lembro quem me levou, o fato é que chegamos umas duas horas antes de a festa começar, porque assim já estava combinado, e chegando lá já haviam convidados, e todos foram antes para ajudar a preparar a festa. Achei que aquilo fez todo o sentido. E no final, quem pôde ficou para ajudar a desmontar tudo, o que fez mais sentido ainda. E a etiqueta de ter tudo lindo, e no final da festa, tudo horrível e desmoronado, só para o dono da casa, me pareceu muito estranho. Por essas e outras eu sempre tive um fascínio pelo Rio.

Desse processo, nada paga o friozinho na barriga de não saber no que vai dar, tirar cada pincelada do quadro e transformar a tela em branca de novo. Lembro de estar sentada em um boteco na Lapa, com um amigo muito próximo, e ele me perguntou o que eu faria para sobreviver. Não sei. TV? Teatro? Cinema? Jornal Impresso? Rádio? Na minha vida antiga eu era uma profissional de TV. Agora posso ser o que eu quiser. Talvez nada disso, inclusive! Respondi que deixaria o povo daqui decidir.

Claro que, mesmo sem expectativas fechadas, chegando aqui muita coisa foi por terra. Infelizmente esse é um canto que, por herança histórica ou dificuldade de viver, muita gente supervaloriza o já batido jeitinho brasileiro para as coisas. As pessoas tentam te passar a perna, porque é quase um esporte. Não importa se roubar dez centavos ou mil reais, o que vale é a satisfação de te fazer de bobo. É a coisa, com certeza, mais triste que sinto sobre os cariocas. Claro que estou generalizando. Como jornalista, é isso que faço o tempo todo. Mas é uma impressão que ficou, e longe de querer parecer realidade, e mais longe ainda de significar que TODO MUNDO aqui é desonesto, o fato é que as atitudes nesse sentido me chamaram a atenção, o que já merece nota. “Se você fechar com a gente vai se dar bem”, já ouvi isso de um cara que estava me propondo uma amizade...   

Outra coisa: o Rio é podre. É sujo, é fétido, cheira a gás da tubulação dos banheiros com chorume, que é aquele suco de laranja apodrecido no lixo. E as coisas são mal ajambradas, o que mais se vê por aí é gato, de energia mesmo, mil fios saindo do mesmo poste, calçadas mal cuidadas, ruas sujas. Nem tudo é zona sul, nem tudo é novela maquiando os velhos de Copacabana com time lapses infindáveis, nem tudo é ator escondido debaixo de óculos e boné numa paisagem de tirar o fôlego. Mas tem a paisagem, que é de tirar o fôlego. E tem um monte de coisas mais, que tornam de verdade essa terra apaixonante.

Adoro o fato de lugares muito simples terem um serviço fantástico. Gosto da tradição de certas coisas. Amo passear por ruas que tem nomes ainda do tempo do Brasil colonial, e prédios enormes, com janelas enormes, pinturas no teto e tapetes. Mas de longe, o que eu mais curto é esse jeitão carioca de falar com todo mundo. Ser jornalista aqui é fácil demais, você dá bom dia e estende o microfone, a pessoa vai te contar a vida dela num piscar de olhos. (Lembro ainda com um certo trauma como tinha que tirar leite de pedra pra fazer um “povo fala”, que é basicamente tirar uma resposta, uma respostinha pra uma questão em especial, de várias pessoas na rua. Perdíamos uma tarde, e muitas vezes sem conseguir completar a missão).

Mas enfim, o que me trouxe para o Rio foi uma aposta pessoal, eu tinha que saber se realmente a arte alimenta o espírito das pessoas. Há um ano, ainda bem,  estou ganhando essa aposta. A arte não só alimenta, pode acreditar, ela transforma as pessoas em melhores. Eu vim para cá com um espírito faminto e não estou dando conta da obesidade em que me encontro, e isso faz o meu estado de graça nessa terra se tornar tão claro para as pessoas. Claro que muita coisa artística acontecia também na antiga cidade, mas não com essa profusão, com essa facilidade, com essa bunda exposta na rua. Adoro perceber como sou ignorante, quanto filme de país que não conheço direito faz sucesso, quantos artistas eu nunca ouvi falar, e mais ainda, fico felicíssima em ver exposições com os quadros que conheci nos livros, e lincar referências tão distantes com objetos concretos que trazem tanta história que chegam a cheirar.

Então, a parte boa dessa história é que tem um final feliz. Final não, que tá no meio, quiçá no início. Estou trabalhando, estou super alegre com o que faço, é ainda melhor do que pude desejar para mim mesma nesse ano.  Gosto da minha casa, dos novos amigos, da minha relação com minha cidade natal, com a atual e com o mundo. Além de ter alimento de sobra para o meu espírito, sinto que consegui atingir meu principal objetivo.

 “Você vai voltar?”

Não sei. Talvez com uns 70 anos. Só sei que passei por muita coisa para ter o direito de não saber.
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