sábado, 30 de novembro de 2013

Cachu – sobre as gravações do Rio aos 30 #03



É verdade que eu estava de ressaca quando gravei esse programa. Todos nós estávamos. Como uma boa equipe que quer permanecer unida, bebemos unidos um dia antes, na casa do Uriel, o editor e sócio da Cazota. E é verdade também que os cariocas adoram esticar as horas livres o máximo que podem, e isso significa, muitas vezes, ir trabalhar na segunda-feira bem chumbado. Mas eu gosto dessa coisa, para ser sincera. Quem trabalha domingo não tem como guardar muitos pudores com a saúde física do dia seguinte, não. E a mental... bem, ela às vezes funciona melhor desse jeito.

Eu estava doida de vontade de conhecer essa tal cachoeira. Alguns amigos já tinham ido passar o dia lá, e me falavam com um ar blaseé, “hoje não vamos à praia não, vamos à cachoeira”. Como assim? Todo mundo sabe que chegar em cachoeiras exige viagens e trilhas bandidas, a não ser  que você já more no campo. E a não ser essa cachoeira. Essa pulsa mesmo dentro do coração da floresta da Tijuca, bem na meiúca da urbanidade e da poeira e de toda a nojeira do asfalto.

Realmente é fácil de chegar, dá até para fazer isso de ônibus (linhas 409 ou 416, ponto final). Logo de cara, no início da subida para a Vista Chinesa, a gente encontra uma represa. É lá que é cheio de ebó. Nada contra, gente. Nada contra MESMO! Acho a religião inclusive muito bacana. Mas não dá pra ficar na florzinha não? Não tem um jeito de não deixar aquele monte de comida lá? Chama rato, barata, bicho de tudo quando é jeito. Acho que o santo vai entender se você explicar direitinho que não queria poluir o local...

A trilha é razoavelmente tranquila. Tem alguns pedaços que impossibilitam pessoas com deficiência de passar, como por exemplo uma parte que é necessário subir com a ajuda de uma raiz, mas de resto acho que não tem grande mistério não. Também tem isso: morar em cidade grande significa que você nunca vai pra um lugar sozinho. Se 0,001% da população tiver a mesma ideia que você, o lugar vai lotar. Daí é só perguntar o caminho para alguém por lá mesmo que você consegue chegar.


Devidamente revigorados, seguimos em frente até a Vista Chinesa. Se você não tem um preparo físico bom, acredite, lembrará desse passeio por mais ou menos uma semana. Então pode ir de carro, ou combinar com um taxista para esperar, ou subir outro dia. Mas podendo, não deixe de ir: a estradinha que leva até lá é uma belezura, até a temperatura muda, toda encalacrada de floresta que é em volta. E do alto do verdume tem a vista mais clássica do Rio de Janeiro, com um quiosque pseudo-chinês lá em cima que dá umas boas fotos. E você sempre pode tirar uns minutos para observar turistas estrangeiros em seu habitat natural.  


*Você já curtiu a página do programa? Entra lá! www.facebook.com/rioaos30

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Cadeg – sobre as gravações do Rio aos 30 #02




                           foto: site do Cadeg
 

O Cadeg foi a nossa primeira gravação. A equipe já frequentava o local, conhecia um bocado daquilo ali. Nessa primeira experiência com a turma, tive o prazerzaço de contar com a presença da Juliana Amorim, que foi, por anos, a produtora que trabalhava comigo no Em Movimento, ainda no Espírito Santo. Ela estava de passagem aqui no Rio e a convidei para acompanhar a gravação. Claro, isso me deu um ânimo diferente, desabituada que estava com aquela turma, como já disse, essa coisa de gravação é uma das paradas mais íntimas que existem, você expôe seus erros o tempo todo para os colegas, um tem que entender o jeitinho do outro, e se não quiser entender, normalmente o serviço sai uma bosta.

Enfim, lembro bem de como estava quente. Pensei que jamais conseguiria trabalhar nessa cidade. Melequenta de suor na primeira sonora, pelo menos eu estava num ambiente que considero total a minha praia – cheia de gente simples, com comida boa e muita coisa para olhar. A gravação rendeu uns bons dois cartões, sinal de que o Beto – cinegrafista – ia ficar puto da vida, o que não aconteceu, e o que já era um milagre.

O pessoal que nos recebeu por lá me deixou de cara com o tratamento. No Espírito Santo eu não estava acostumada a ser tão bem atendida assim, de cara, para um programa de internet (!) que sequer existia(!!!). Nos levaram a todos os cantos, nos explicaram tudo, abriram rodas de conversa, nos deram cerveja gelada e uma bela mesa banqueteada com todos – TO-DOS! – os pratos disponíveis na festa portuguesa. Cheguei em casa meio alta, cansadíssima de tanto calor e tive uma DR com meu namorado, que até hoje não entende direito que às vezes eu preciso beber no serviço, mas valeu a pena.

Eu adoro me enfiar em um mercado. Todos os que conheci eram lotados de história, aspectos da cultura local, comida e bebida fartas. Esse ainda é entupido de produtos fantásticos e fica perto da minha casa. Um toque de pertencimento a uma Zona Norte ainda pouquíssimo explorada e festejada, aquela gravação começava a fazer sentido em tudo o que eu queria aqui, ainda mais com tanto vinho e planta em volta de mim. E eu descobria que exercer meu serviço aqui, ao contrário do que imaginava (e como muita gente gostava de ameaçar) parecia muito mais fácil. Cariocas falam, se a gente puxa conversa eles dão pano para manga, riem junto e estão acostumados com câmeras. Ninguém fica com vergonha ou “prefere não se expôr”, o que facilita muitíssimo o meu trabalho.

O legal do Cadeg é que ele é um ambiente verdadeiro. Pelos motivos mais diversos, todo mundo que eu levo lá fica com vontade de voltar. Papai ama a diversidade de vinhos e principalmente os preços. Mamãe se perde nas plantas. Cesinha e Tati adoram o PF de bife. Acho que Juju super curtiu a mini aula de cervejas importadas, a equipe adora comer lá no fim de semana, ouvindo um chorinho, e eu gosto muito da feijoada do Barsa e dos lombos de bacalhau ponográficos que expõem por lá. É um lugar genuíno, raro no Rio, que não vai te cobrar mais caro pela vista, mas sim pela qualidade das coisas.


Serviço: Vá de táxi. Permita-se beber uma cerveja por lá, ou mesmo um vinho. Tem locais climatizados muito bons, onde você pode comprar uma garrafa na própria loja, a um preço bem bacana, para acompanhar a refeição. Ah! E se for fora de temporada, você ainda pode topar com o Papai Noel. 
 
Para você que não viu:
o Rio aos 30 do Cadeg está aqui: http://www.youtube.com/watch?v=EnS6zqoc6uw
 
O Papai Noel está aqui:
 
E o site do Cadeg é este aqui:


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Turistando - sobre as gravações do Rio aos 30 #01




O primeiro é pra ser gongado
Ter ideias até que é fácil. Difícil é estruturar, botar em prática. Começar, então, é sempre um desafio, seja lá onde você quer se meter. Com o Rio aos 30 não foi diferente, e o tema do primeiro programa não surgiu de uma hora para outra. Na verdade, já havíamos gravado alguns quando tivemos a ideia de fazer exatamente o oposto para abrir os trabalhos. Um dia inteiro de tursimo bundão. Já começamos a rir só de imaginar a equipe gravando nos lugares mais espalhafatosos, gringos e azerbaijanos do Rio.

No Pão de Açúcar
A gente saiu para gravar num sábado de manhã, e é verdade que os cariocas são super proativos. Um monte de gente encalacrada na pedra do bondinho logo de manhã é uma coisa que choca a gente. Aquele monte de bagulho sendo vendido, não maconha, bagulho mesmo, aquelas sombrinhas com cenas de cartões-postais da cidade, horroroso, quem compra aquilo, gente? E depois a companhia aérea ainda vai achar que se trata de uma arma, e de certa forma eles têm razão.

Entra numa fila, tudo bem, por aqui se descobre rápido que coisas boas têm fila, aaaaaaaaaaaaaaahhhhhh, então você tá me dizendo que o bondinho é uma coisa boa? É sim, eu acho uma coisa boa, não é porque é ridiculamente voltado para os turistas que não seja bom, os turistas têm cérebro, mesmo que refrito por ácidos e álcool eles têm cérebro, eles sabem o que é bom, e um treco que te sobe para você apreciar uma bela vista ao invés de te atracar com uma pedra quente às sete da manhã de sábado não é bom não, é ótimo.   

Chegando aos pontos, só dá pra dar graças a Deus que a equipe é formada também de cariocas. As descobertas são de verdade, tipo, se ninguém me avisasse eu REALMENTE ia fazer a trilha até o nível do mar de novo. É mesmo mal sinalizado, e os serviços surgiram de necessidades que eu ia encontrando de não me perder por aí... (Pode até ser que eu seja meio lenta para perceber as coisas, mas duvido muito que turistas com o c* cheio de cana de uma semana seriam mais espertos do que eu).

Bom, a esse serviço segue-se o povo fala mais inútil que já se fez em toda a história do audiovisual brasileiro, com aqueles proativos felizes que estão, ou não, todos os fins de semana escalando as pedras do Rio de Janeiro, com pessoas de fora, e também de brasileiros, já que estamos dentro do Brasil.

E aí descubro que minha voz fica muito estranha quando dou urros de alegria, o que pode acontecer com a visão de um creme para as mãos de graça. Quando digo que apresentadores não têm a menor noção de como vai sair essa porra no ar, é disso que estou falando, e a gente só descobre junto com todo mundo , ah, como gravar pode ser gratificante, a gente aprende muitas coisas. (E se alguém aí está curioso, ainda não conseguimos o patrocínio da Natura).

Gente, os pratinhos. Os-pra-ti-nhos. Os pratinhos são feitos com fotomontagens horrendas. As imagens (vendidas também), são tipo, não consigo nem descrever.  São tipo de pessoas photoshopicamente sentadas na mão do Cristo, ou em cima do morro da Urca, ou tomando banho na Lagoa. Um horror.

Em Copa
O lance do espetinho de camarão é o seguinte: sempre quis comer aquilo. Quem nunca? É uma das coisas mais esteticamente bonitas pro meu paladar. Camarões gigantes e vermelhos passeando pelo céu da minha boca enquanto olho o mar, é de chorar de vontade. Mas lógico que rola aí um trauma: minha mãe NUNCA deixou eu comer esse troço. Nunca nunca nunca nunca nunca. (Daí que quando eu saí de casa, um belo dia, passou um desses vendedores na minha frente e eu não resisti. Como um símbolo máximo da minha rebeldia e independência recém adquirirda, comprei um espetinho. Óbvio que no mesmo instante liguei para ela e contei. Ela, do outro lado da linha, ainda tentava me impedir da loucura: “nãããããão, minha filha, não coma isso!!! Não coma o espetinho de camarão!!!!”, “vou comer sim, a vida é minha e faço dela o que eu quiser”. Eu não morri, mas tenho certeza absoluta que Deus só fornece uma chance para cada ser humano experimentar a iguaria. E olha que eu sou do tipinho que come ostra crua. Ah! Declaração importantíssima: é mais bonito que bom).

Uma das coisas mais legais de fazer quando se vai para Copa é passar por gringo. Se você não tiver uma cara muuuuuito de brasileiro, seja lá ela qual for, vão te tomar por gringo. Daí é só não falar muito, deixar os ambulantes falando sozinho em inglês. É super divertido. (Minha nacionalidade avatar no Rio é francesa, tá gente?)

Uma coisa que PRECISO desabafar dessa gravação é que a piada infame do Lelek line não é minha. NÃO É MINHAAAAAAAA!!! HAHAHAHAHAHHAAHHAHA! Foi o produtor que mandou essa, e eu não resisti e falei, mas não foi ideia minha, eu juro, hahahahahahah!!

No Cristo
O Cristo é legal. Gravamos tudo no mesmo dia, eu já estava um bagaço, mas o pôr-do-sol que pegamos foi realmente incrível. Sempre dá para você se divertir tentando sair de penetra nas fotos dos outros, e é bom que você tenha metas mesmo, senão pode cair num mau humor tremendo, eu que detesto esse monte de gente se encostando para ver as coisas com certeza teria desistido se não fosse a gravação (ahhhhhh, como é bom, tá vendo? Gravar é ótimo), e infelizmente não deu para vocês entenderem a piada “deita no chão, Beto”, Beto tem uns quinze metros de altura, ele não deitou no chão, mas seria ótimo ver isso.

Serviço:
Vá de blusa com mangas no Cristo. As banhas do braço ficam horríveis na foto de baixo para cima.

Epílogo
(Uriel, o editor, falando com o cara do som): -Carlão, tem como você arranjar uma base para introduzir um punk rock?

(Carlão): Olha Uri, punk rock é um estilo... conhecido por... não ter introduções, e tal.

(Uriel): Pô, mas preciso de uma base aqui. Qual é o nome dessa música, Helena?

(Helena): Éééé... “urubus não têm ressaca”.

(Uriel): “urubus... não... têm...”


(Helena): Você tá mesmo procurando ESSA MÚSICA no GOOGLE?         

terça-feira, 19 de novembro de 2013

No dia do arrebatamento este carro ficará arrebentado



Uma das maiores falácias que o homem inventou foi que “aprender é bom”. Aprender é uma merda, gente. Bom é já saber.

Meu texto de hoje é baseado nessa mentira descabida que estão por aí reproduzindo há séculos. Vou botar minha boca no trombone pra falar o que todo mundo sabe, mas continua repetindo o oposto. Aprender é horrível, dolorido, impetuoso, no mínimo chato. Parei de frequentar aulas de inglês porque achava insuportável aprender uma língua em regras estampadas em caixinhas verdes. Boring, boring, boring. E se você tem dificuldade na Matemática pode decorar a tabuada, saber a tabuada é muito bom, mas você não pode decorar, tem que INTERPRETAR a tabuada, como faz isso? Mais uma mentira, socorro papai do céu, como sou burra, não consigo INTERPRETAR a tabuada, É PORQUE É IMPOSSÍVEL FAZER ISSO MINHA, FILHA. Pode entrar no Kumon, também, que é a versão nazista dessa pseudo-interpretação. Joia.

Ou aprender Português. Você pode ler livros, não aprender Português. Você tem que falar, e ler, e falar, e escrever, e uma hora começa a cometer menos erros. (E o google também ajuda).

Mas isso tudo é na parte fácil da vida, porque também tem a difícil, tem quando a gente precisa aprender a lidar com PESSOAS. Isso sim é complicado. Porque PESSOAS são seres estranhos e indecifráveis. E imprevisíveis. Quando você chora e pede pelamordedeus, a maioria lambe os beiços para tacar sua cara no meio fio.  Isso depois de ter passado o caminhão em cima de você. E um cachorro ter mijado no seu olho direito.

Estou escrevendo assim, desse meu jeito doce, porque fui atropelada há pouco tempo. Sabe quando parece que a gente já viveu demais para não acreditar não ter previsto o furacão? O tempo virou na minha cabeça, nuvens pretas carregadas de duendes saltitantes dizendo “toma cuidado, minha filha”, e eu fui lá, com um guarda-chuva feito de metal pra escorrer melhor o raio pra minha cabeça. Se foi ruim? Foi horrível.

Mas... aquela coisa. É ruim aprender, mas péssimo não ter vivido. Por isso, não trocaria por nada, sei que tive, na verdade, uma bela de uma oportunidade. Já estava sabendo, Osho tinha me contado. “Veja a destruição como se fosse com outra pessoa”, ele me avisou ao pé do ouvido. Tentei o máximo que pude, e permaneci em pé.

É muito difícil aprender, mas saber é uma das coisas mais gratificantes que existem, e é só por isso que a gente se fode. O tsunami arrancou tudo em volta, mas depois caíram algumas flores em volta de mim,  com cara de bênção e raiz forte o bastante para replantar. Dessa vez saberei onde, quando, em qual lua, um monte de coisa que só quem foi atropelado sabe. Que bom.

Sabia, sabia, sabia que tem gente que vai te abraçar no fim do mundo? 

Agora estou aqui, só agora, ainda bem, deu tempo de rearranjar um pouco as coisas, mas agora estou assim, gripada com aquela gripe que te atropela, mas agora você não permanece em pé de jeito nenhum, ela te faz cair para você lembrar que tem esse direito, nem que seja distante, escondido. Tenho trinta anos e já sei que esse é o tempo da Terra para a recuperação. Dói o corpo, a cabeça. Parece que você está constantemente bêbado, só que de meleca. Ah, é assim, é assim que a gente se sente. Sua boba, precisa dessas firulas, uma dosezinha de autopiedade só para ficar preguiçando com alguma desculpa boa. Dá é graças a Deus de você não bater ponto, ninguém ia te permitir isso não, tá? Tá, mas provavelmente eu não seria tão atropelada assim também, ora bolas.


Enquanto isso eu durmo, jogo Candy Crush, sonho com espíritos. Eles me pedem ajuda, e as coisas por aqui acabam me parecendo simples demais.  

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Homeless




Esqueci a escova de dente oficial na outra casa. Aqui só veio comigo uma condor laranja, daquelas que o cabo vira uma capa para proteger as cerdas, uma escova vagabunda feita pra estar em qualquer lugar, até na bolsa de trabalho, onde tudo vive. Do lado dela, em cima da pia, uma pasta de dente velha demais, nem é sensitive, eu que uso sensitive há tanto tempo, ela tá lá, dobrada no meio, esperando desesperada a hora de descansar em paz. No banheiro também tem cotonete, muito cotonete, aquele pote redondo grandão, que boa surpresa, ainda bem que eu comprei um desses antes de viajar.

Tem algum tempo que eu não escrevo aqui, desculpem a quem procurou mais coisa e não encontrou. O motivo é que estou homeless: fui chamada às pressas para ir à Vitória para compor a equipe do Festival de Cinema de lá. Esse trabalho me orgulha bastante. É cheio de dificuldades. Não, é só feito de dificuldade, ser produtor de evento é resolver pepino, basicamente. Ainda mais quando o evento não está nadando em patrocínio. Enfim. Exatamente o que eu precisava para alimentar o meu Espírito Prático, tão adormecido por tardes de sesta depois regadas a café e leitura e escrituras, só o irmão tava ganhando comida, o Espírito Criativo, o Prático, coitado, tava “praticamente” morto. Rá.

Mas então, fui chamada assim, às pressas. Gosto dessa expressão porque fica parecendo que a gente é super importante. Ninguém dispensável é chamado “às pressas”, e, se eu fui, é porque precisavam de mim, o que é super legal e a cara dos trinta anos. Então eu fui. No meio da quizumba da estreia do programa. Gostaria de estar acompanhando mais de perto a repercussão, mas não deu, e talvez seja melhor assim. Só sei que fui, e agora parei um pouco para escrever porque estou no Rio, vim para gravar no meio da produção do Festival, o que é muito legal, afinal, há duas semanas larguei tudo uma farofa aqui, agora larguei tudo uma farofa lá, dá uma ventania no cérebro, essa coisa de ponte aérea rapidinho pra resolver uns troços, você esquece até a escova de dente oficial, achava você, na hora de fazer a mala, que não ia fazer falta, quando na verdade tudo o que a gente precisa pra se sentir em casa é a porra da escova de dente oficial, tem que estar gasta, senão não adianta, não adianta ter uma boa agora, o efeito é o mesmo da condor laranja vagabunda.

Mas esse papo é besta, e o que eu queria mesmo dividir com vocês é sobre as minhas impressões das cidades, que estão mudando. Começo a ver Vitória de um jeito diferente. Uma cidade emprestada. Familiar, mas emprestada, de ladinho. Começo a ver como a mobilidade é péssima, como a orla é bonita. Percebo como a cidade passa a ser feita de pessoas, aquelas pessoas que sincretizam o que sempre vou buscar lá. E que meus olhos já não estão mais anestesiados quando passa algo novo, construído nos últimos meses. Começo a ficar de turista, procurando os botecos recém surgidos pra não ficar muito marginal de tudo que nasce.
 
Daí que veio essa primeira impressão de que eu estava homeless. Desculpa o termo em inglês, mas tem umas palavras de outras línguas que são melhores que o português – poucas, mas existem.  E estar homeless é essa sensação de que você não pertence a lugar nenhum. Ou que carrega a casa nas costas. Gosto do jeito que Osho descreve isso no seu tarô – ele fala de uma tartaruga, que carrega a casa nas costas, mas a casa não é tudo que você precisa, é só o que você precisa. Tipo uma escova de dente, ou menos que isso, se você for mais evoluído budísticamente falando.  

Hoje, pela primeira vez, recebi um tapa. Desci no Santos Dumont blaseé, e acho que foi a primeira vez. Blaseé, sem olhar pros lados, e com aquela alegriazinha no coração de ter voltado pra casa, de pertencimento à cidade. Agora, é aqui. Que coisa estranha. Lógico, quando fico aqui por muito tempo tem um pedaço que fica de fora, que é toda a minha infância, porque o que tenho é um conhecimento da cidade construído pelo Google Maps e não pelo empirismo. Aprendo o Rio em regras escritas em caixinhas verdes, como nos livros de inglês, e não ouvindo os mais velhos falarem sobre isso. E nem os  mais novos. Talvez por isso eu sinta que é estranha a sensação de “que bom! Voltei PRA CASA” ao descer de um Santos Dumont. E como acho mais fácil lidar com as coisas aqui, e como fico patinando para pegar um ônibus em Vitória.

Pertencimento é tipo um interruptor, você pode virar uma chave que ele muda. Sabia? Não é ser homeless, apesar do que, pra mim, a ausência de um sentimento de casa pode ser a presença da casa em todos os lugares, é a essa conclusão que ainda não cheguei, se a gente é um ou outro ou tudo. Só sei que fui pega de surpresa com essa sensação hoje, eu realmente não estava esperando por isso, e tive que dividir com um amigo que já mudou algumas cascas de vida, e ele achou tão simples isso tudo, a minha grande descoberta. Acho que é porque ele já é three way.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O post do Cesinha




Cesinha Fernandes “Quero um post, um vídeo e um curta sobre como é legal me receber amanha na sua casa carioca. Como é legal limpar a casa, comprar café e açúcar (quando o erly nao come tudo), afofar os travesseiros e avisar pro seu Henrique que vamos falar alto a noite toda. Como é divertido me levar no Saara e enganar a Tati que vamos pra praia.

Já acordei morrendo de rir, mas logo isso virou uma tristeza, nostalgia, sei lá o quê. Porque você não tem ideia de como eu gosto mesmo quando tem visita. Eu marco com uma carinha feliz no meu celular e fico esperando a data que nem criança esperando 12 de outubro. Eu faço faxina, quase sempre, que aqui não tem pó de minério e nem sempre vocês reconhecem a diferença entre uma casa limpa e uma casa sem pó de minério, e deixo a Frida no quarto pra dizer que quem está esperando é ela. Eu adoro quando vocês vem, sempre gostei de receber e aqui a situação de carência amizádica tá bem pior.

É engraçado isso. Prefiro receber aqui do que ver em Vitória, pra falar a verdade. Lá, preciso me esticar pra encontrar todo mundo. Aqui, as pessoas são MINHAS. A qualidade das conversas são melhores, porque são separadas e porque sabemos que não temos todo o tempo do mundo, e quero sim que o dia tenha mais de 24 horas, e vou colocar chá verde no suco pra ninguém dormir. E como a vida fica suspensa por alguns dias quando vocês vêm aqui, e como insuportavelmente volta ao normal quando vocês vão embora.

Vocês não sabem como eu queria ficar jogando conversa fora no Nininho e deixar a conversa acabar, e ficar em silêncio porque cansamos de falar sobre trabalho, mas acho que estou fantasiando, isso nunca aconteceu. E vocês não têm a menor ideia de como a ausência de certas coisas dói dói dói às vezes, um comentário explicando uma TV aberta que não sei ver, um músico que não sei quem é, um conselho que ninguém vai dar e tenho que fazer decisões sobre a minha vida sozinha, ninguém devia ter que passar por isso. E eu não tinha ideia de que essa seria realmente a parte difícil de me mudar.

Gravamos ontem, estou numa ressaca monster e totalmente sentimental, aproveite esse momento. E já que é para fazer um post, que seja pra dizer como eu odeio ir ao Saara, mas já que é pra ir com vocês, tá legal. E que fico programando com antecedência coisas que acho que vocês vão gostar de fazer, e depois ainda levo a fama de ser tirana da programação. E como eu adoro praia, mas prefiro fazer alguma coisa que todo mundo goste, e enganar a Tati todo mundo gosta.

Agora vou tomar um suco detox e talvez até dar uma faxininha na casa, já que esse vôo não chega nunca. Ah! Mais importante: hoje vamos ver TV até a Anitta aparecer na propaganda do supermercado daqui, essa sim é uma coisa importantíssima que preciso muito mesmo mostrar pra vocês.   

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A alcateia

 
 
Fé é subir um primeiro degrau sem conseguir ver o resto da escada.

Rá! Eu estava louca de vontade de começar um texto com uma frase autoajuda, gente, não me contive. Mas vamos lá.

Desde que comecei esse blog, disse que vim pro Rio para ampliar meus horizontes. Obviamente isso tinha mais a ver com a esfera profissional do que tudo. Só não tinha abordado ainda o tema trabalho porque invariavelmente preciso ruminar as coisas antes mandá-las ao vento. Dito isso, recomendo que vocês leiam o post “O glamour da produção” antes desse, porque gosto de coisas cronológicas e porque vai ajudar o entendimento. Ou não, foda-se também, quem sou eu pra dizer que post você tem que ler antes.

Bem, estava eu já instalada aqui no Rio, e com algum dinheiro em caixa que fiz de freelas. Podia me dar ao luxo de pensar no que queria trabalhar aqui, sem ter que atirar meu currículo pelos quatro cantos de tudo quanto é loja de sapato (até porque, socorro, eu não venderia algum). Sempre gostei de TV fechada, e a bolsa da Dilma veio a calhar (pra quem não sabe, a presidente colocou uma cota que estabelece uma quantia mínima de tempo de produção nacional nas TVs fechadas. Ééééé, é por isso mesmo que você tá vendo um monte de porcaria na sua tevezinha fechada preferida agora!!!!! Descobriu!!!! Mas tem um monte de coisa boa também, e como eu faço parte do grupo beneficiado tenho que agradecer à Dilma. Obrigada, Dilma).

Daí que comecei a conversar com as pessoas, beber cerveja, e se quer uma dica, aqui no Rio é assim que se faz negócio. Não enviei um currículo sequer a quem não pediu expressamente para um trabalho no qual julgou que eu me encaixaria. Essa estratégia acabou me levando a trabalhar com um amigo, virou amigo agora, pra ser mais precisa, um cara que já trabalhou comigo em Vitória, em outra função, mas na mesma rede. Ele, com um sócio, estavam estruturando uma produtora e me “adotaram”. Foi isso. Não sei até que ponto isso tinha a ver com a real necessidade de uma jornalista lá dentro, ou se foi o espírito que bateu, mas o fato é que já havia uma equipe formada e eles me colocaram pra dentro. Sabe o que isso significa?

Entrar em uma equipe de TV é mais ou menos tentar fazer parte de uma alcateia já formada. Logo que você tentar entrar, todo mundo vem cheirar o seu rabo, só pra poder dizer que fede. Todo mundo vai brigar com você, ou pelo menos discutir, só pra medir o seu limite, o tamanho da sua força, os seus dentes.  Todo mundo quer saber se você pode feder a ponto de virar um macho alfa. Aliás, esse mundo é tipicamente masculino, é bom reduzir a feminilidade ao bastão do batom ou você pode se dar mal...

Mas depois que a alcateia está formada ela vira uma fortaleza. Trabalhar na rua, com todos os obstáculos diários, é impossível se não for assim. Então, regra número 1: nunca, jamais, em tempo algum contradiga o que um companheiro de trabalho disse para uma terceira pessoa. Depois você vai lá tentar entender com ele porque ele disse aquilo, mas roupa suja se lava em casa!

Regra número 2: tente ao máximo não extrapolar a sua função. Isso não é proatividade, aliás, é sim, e proatividade é uma merda. Fique na sua, que todo mundo ali sabe o que tem que fazer e cada um faz a sua função melhor do que você faria.

Regra número 3: reafirme os laços. Beba com seus colegas de trabalho. Retire os piolhos deles.

Não sei pra quê estou falando isso, mas enfim, essas são regras de ouro para mim, porque eu já me f*** muito quando não as segui e porque estou me sentindo muito bem sucedida, já que acabei de ser aceita em mais um grupo, e esse grupo é realmente especial. Claro, todo trabalho tem seus poréns, mas o fato é que caí numa alcateia de lobos anômalos. O produtor não é frustrado, pelo contrário, acabou de chegar aos 30 e me parece bem satisfeito na sua função. O câmera não reclama. ELE NÃO RECLAMA! (Isso pra mim já não é anomalia, é um milagre, só não é mais miraculoso porque ele não fala nada, então não reclamar é só uma extensão da sua personalidade). O editor não reclama que falta imagem, nem que sobra. Aliás, o editor é macho alfa da gang, o que é a maior anomalia que já vi. O outro alfa é o cara que cuida das contas e das pessoas, um pseudo-z... ah, deixa pra lá. 

Esse povo tinha uma ideia na cabeça e uma produtora nas mãos. E calhou de me convidarem para um projeto independente (projeto independente é o que você gosta de fazer, mas não recebe por isso) em formato de TV para internet. Claro, torci o bico pra dentro, sorri por fora, mas fui me acostumando à ideia. Eu gostava de TV fechada por falar com um público específico, isso traz muita liberdade. Agora... TV pra internet é muito foda, gente! Não impõe nada para as pessoas, é de graça, se você gosta do produto se sente bem em compartilhar, se você não gosta, simplesmente não assiste. Tão inteligente! Me apaixonei pelo conceito todo, e por isso também voltei a escrever.

E meio ainda sozinha, numa água de março a gente começou a gravar, e como pau e pedra correm juntos quando estão no mesmo rio, tudo acabou virando uma coisa só. Fazia todo sentido. Tudo é Rio. Tudo é 30. E nessa idade, eu já não aguento muito mais falar sem ser abordada pelas minhas próprias palavras DEPOIS, que saem sem permissão alguma, então tinha mesmo que ser livre. Demorou, porque projeto independente demora mesmo, porque você tem que colocar as coisas que pagam as contas antes e porque você não tem o menor motivo de fazer aquilo, então que seja bom de fazer. E o resultado é que agora o blog ganha um braço, que é um canal de TV no Youtube.

Nesse canal traremos registros de programas para se fazer no Rio que fogem da mesmice. Tudo com os olhos de alguns balzaquianos que gostam de comida bem feita, cerveja importada, lugares e pessoas interessantes. Ah, e todos são fãs incondicionais de Anthony Bourdain.

Espero sinceramente que gostem, porque vocês trilharam esse caminho comigo até aqui. Se não gostarem, gritem, que talvez eu escute no ouvido bom. E se fé é subir o primeiro degrau sem conseguir ver o resto da escada, tá tudo bem, né? Pode ser só problema de vista. Mas que dê pra gente ver o início, pelo menos.

***

Servicinho básico:

Agora o blog Rio aos 30 tem três produtos: o blog, o canal na internet (youtube.com/rioaos30) e a página no Facebook (facebook.com/rioaos30).

O blog continuará trazendo textos sobre esse universo de mudança, de Rio, de 30 anos. Independente do programa. Mas também vai trazer um texto referente ao lugar que conhecemos, para quem quiser o registro escrito. Já a página no Facebook será alimentada com informações diversas, serviço dos passeios, a trilha musical dos programas, fotos, etc. E o canal, obviamente, será a casa dos registros audiovisuais.

A equipe também pediu que eu fizesse uma apresentação à la Bell Marques, missão que eu cumpri com mestria, então aqui http://www.youtube.com/watch?v=dMpc445l6Ts
já tem um teaser demoníaco para vocês verem o que acontece quando a gente escreve o que pensa. As pessoas se vingam da gente. E nesse caso, foi o editor, que é Deus na televisão, ele faz o que quer e cria verdades (espero que essa frase melhore a nossa relação daqui pra frente).

No mais, continuamos nos falando pelo Facebook, e ah, sim, estreamos semana que vem!